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Reflexões sobre a morte e o morrer

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

A morte é compreendida de uma forma universal como fim de um processo físico-biológico. Sendo vista na contemporaneidade como algo assustador, que deve ser desviada a todo o momento.

9 ABR 2019 · Leitura: min.
Reflexões sobre a morte e o morrer

A morte revela-se, na maioria das vezes, como um tabu, onde não existe abertura para falar sobre tal acontecimento, sendo negada como se não fosse algo presente na existência humana, podendo ser lembrada quando acomete alguém conhecido ou parente próximo.

Kovács (1992) recorre a obra "A história da Morte no Ocidente" de Ariés (1977), mostrando as diferentes concepções sobre a morte durante o decorrer da história e ressaltando que no século XX, a morte é compreendida como uma morte invertida.

A morte na sociedade contemporânea

A morte não pertence mais à pessoa, tira-se a sua responsabilidade e depois a sua consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma morte ocorreu. O grande valor do século é o de dar a impressão de que "nada mudou", a morte não deve ser percebida (KOVÁCS,1992, p.39).

Nota-se que a morte passa a ter um sentido de negatividade, a qual deve ser esquecida, sendo ignorada e afastada da sociedade. Assim, "a morte não é mais considerada um fenômeno natural, e sim fracasso, impotência ou imperícia, por isso deve ser ocultada" (KOVÁSC,1992,p.39).

Hoje na modernidade, com todos os avanços tecnológicos, é difícil para a humanidade aceitar que é um ser mortal, que a sua existência terá um fim e que o mesmo não poderá fugir dessa responsabilidade. Segundo Pompéia (2010, p.79) "a morte limita todas as possibilidades, e não as limita apenas lá no fim, quando ela ocorre. Ser mortal é ser limitado o tempo todo, é não poder ser tudo", diferentemente do que é pregado atualmente, em relação a esse poder ser tudo, que transforma o homem em um ser soberano.

Os recursos tecnológicos segundo Rodrigues (2008, p.116) permitem ao homem ter um domínio maior sobre as doenças, "vai conhecendo cada vez mais profundamente as particularidades do seu corpo, ele amplia, ao mesmo tempo, a ilusão de controle sobre a morte". Assim, o autor conclui que "o medo da morte avança, à medida que os recursos tecnológicos atingem o seu apogeu".

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Por que tememos a morte?

Esse medo que a morte desperta pode advir do desconhecido por não saber como será essa morte, tendo em vista que não é possível conhecimento sobre a própria morte. O que existe é a consciência da morte do outro, e essa morte do outro também provoca medo por causar separação, Kovásc (1992, p.24) aponta que "embora o medo da morte não seja inato ele é inerente ao processo de desenvolvimento e está presente em todos os seres humanos. É um medo básico, que influi em todos os outros e do qual ninguém fica imune, por mais que possa estar disfarçado".

Segundo a autora, esse medo está presente desde a infância quando, na maioria das vezes, os pais sentem receio em falar sobre morte para os filhos, omitindo tais fatos quando acontece uma morte na família. Percebe-se que essa dificuldade de comunicação sobre a morte e o morrer, provoca certo afastamento dos mesmos quanto ao modo de pensar na sua finitude e nas dos seus próximos.

Rodrigues (2008, p.131) mostra que a morte é vista na contemporaneidade como a grande estranha, aquela que traz consigo o desconhecido provocando inquietações. "A morte é estranha, pois ela vem mostrar, de forma inequívoca, que toda essa formulação é ilusória; ela vem trazer "estranheza" a esse sujeito contemporâneo; ela marca a temporalidade de todas as suas construções e a transitoriedade de seus projetos".

De acordo com o autor, a morte é estranha porque desaloja o homem, sinalizando que o mesmo é um ser finito, marcado por uma temporalidade veloz que assusta e mostra que a vida não pode ser medida, muito menos prolongada, que haverá um fim, apesar de não ser possível saber quando acontecerá.

Pompéia (2010, p.82) revela em seu pensamento a morte como uma perda, aquela que quando está distante é compreendida como algo possível de acontecer a todos, mas quando a mesma é próxima gera uma estranheza.

Lidando com nossa finitude

A morte fala da perda, a perda fala da dor, e a dor assusta. Quando a morte não nos toca de perto, podemos encará-la intelectualmente como uma coisa que acontece a todo mundo, chega a ser algo familiar. Quando ela nos toca mais proximamente, torna-se uma coisa estranha, gera um espanto.

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Isso pode ser observado em situações do cotidiano, quando é visto várias vezes por dia, notícias a respeito de variados tipos de morte, onde as pessoas por um momento param, prestam atenção e dependendo da causa da morte deixam ser afetadas ou ficam em choque com o espanto que a situação causa, mas sente que é uma morte distante, do outro desconhecido que está longe dela, que não possui vínculos. Mesmo assim, o fenômeno do morrer é elaborado. Signorelli (2011, p.45) diz que "a morte ainda que seja a do outro, sempre nos toca e segundo seja a nossa própria idade nos fará vislumbrar nosso próprio fim, nossa mortalidade. Cada vez que alguém morre é um golpe à fantasia de imortalidade".

Acreditando na "imortalidade" ou confiando na ideia de que a temporalidade da existência humana se faz numa ordem cronológica, a morte é pensada como algo que deve acontecer quando as possibilidades físicas do humano estiverem limitadas, ou seja, na velhice. Assim a mesma é pensada através de um futuro distante, não é vista como inerente a vida, a qual é possível acontecer a qualquer momento, com qualquer pessoa em qualquer idade. Segundo Pompéia (2010, p.79) "a morte não é uma condição do futuro; ela pode ser a qualquer instante".

Como o ser é sempre um ser-com-os-outros, presencia-se a morte em numerosos momentos, durante a existência, ao ver o morrer das pessoas próximas. Pompéia (2010, p.81.) aponta que "a morte se torna ainda mais perturbadora quando vemos que aquelas pessoas cujas vidas gostaríamos de preservar, talvez até mais que a nossa, podem morrer. A morte do outro aparece como uma perda".

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Kovács (1992, p.153) revela que "a morte do outro configura-se como a vivência da morte em vida. É a possibilidade de experiência da morte que não é própria, mas é vivida como se parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos vínculos estabelecidos". Entende-se que a experiência da morte do outro provoca uma sensação de rompimento com a presença daquele ser que não estará mais fisicamente no cotidiano, compartilhando das mesmas coisas e realizando as atividades que antes fazia no seu existir. Essa ausência do ente querido pode promover sofrimento decorrente da afetação que o morrer do outro provoca, podendo ser vivenciado por todo o grupo familiar.

Pompéia (2010) sinaliza que assim como é fundamental dar um sentido a vida, é necessário que o homem aprenda a dar um sentido ao morrer. Acredita-se que ao dar sentido a sua finitude e ao morrer do outro, presente em sua existência, será mais fácil compreender o fenômeno da morte.

Para o homem, a morte pode não ser apenas a submissão a uma determinação em sua estrutura genética ou a uma contingência. Ele pode fazer da morte um gesto de apropriação. Ao fazer isso, ele gesta ao mesmo tempo a história, a vida e o sentido. Sentido do qual ele precisa para viver e para morrer. (POMPÉIA, 2010, p.73)

A partir das explanações a respeito da morte e do morrer, percebe-se o quanto o fenômeno morte é visto, ainda, como algo ameaçador ao humano, provocando várias inquietações e sofrimentos psíquicos.

Por Camila Alves, inscrita no Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco,  CRP 02/17563 

Fotos: MundoPsicologos.com

Principais Referências Bibliográficas:

KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano.. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

POMPÉIA, J. A.; SAPIENZA, B. T. Os dois nascimentos do homem: escritos sobre terapia e educação na era da técnica. 1. ed. Rio de Janeiro: Via Verita, 2011.

RODRIGUES, J. T. Terror, medo e pânico: manifestações da angústia no contemporâneo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.

Escrito por

Psicóloga Camila Alves

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