A elaboração do luto, ou “deixe que seus mortos se vão”

Como a compreensão do legado e da herança dos que partem do convívio terreno pode colaborar no processo de elaboração do luto para aqueles que ficam?

26 JAN 2020 · Leitura: min.
A elaboração do luto, ou “deixe que seus mortos se vão”

A morte é a única grande certeza que todos nós temos no decorrer de nossa caminhada por esta Terra. Entretanto, nos habituamos todos a viver como se a ceifadora nunca viesse, ou como se fosse uma realidade muito distante de nós… até que, em algum momento de nossas rotinas - pá! - ela surge sorrateira levando um amigo, um parente, um conhecido.

Às vezes, ela se camufla marota sob as roupagens de uma doença neurodegenerativa, uma enfermidade incurável, uma patologia autoimune… e vai se instalando, e ficando, e sugando dia após dia a energia vital da pessoa, suas memórias, suas alegrias. Noutras, ela nos surpreende soturna e terrivelmente vestida como um mal súbito, um ataque cardíaco, um acidente fatal… e leva repentinamente aquele ou aquela que, há até pouco tempo, estava ali conosco, vicejando de saúde, fazendo planos, marcando para tomar um cafezinho amanhã às 3 horas da tarde.

Seja qual for o modo que a morte bata em nossa porta, o certo é que ninguém espera por essa visita incômoda. É natural que não queiramos pensar neste evento inevitável, afinal, viver pensando na morte pode nos paralisar, corroer nossos planos e projetos para o futuro, prejudicar nossa elaboração de sentidos e significados e, de fato, impedir-nos de viver plenamente. Por outro lado, o senso de nossa finitude também pode nos impulsionar na criação de obras e experiências que permaneçam após a nossa partida, como um legado para as novas gerações, configurando-se numa maneira de – deixando uma parte de si na cultura ou na história daqueles que ficam – garantir a própria imortalidade.

As marcas dos que se foram estão aí, ao nosso redor. Podemos reconhecer a personalidade e o talento de Van Gogh, de Beethoven e de Rodin décadas após eles terem nos deixado graças às obras artísticas que saíram de suas lavras. Podemos usufruir da genialidade de Da Vinci, de Steve Jobs e de Santos-Dumont por meio de seus inventos e ideias que circulam entre nós. Podemos compartilhar do pensamento vivo de Aristóteles, de Copérnico e de Stephen Hawking através de seus escritos e dos seus seguidores.

Outros legados são mais sutis, mais particulares, e igualmente marcantes. O pai ou a mãe que se foi deixa nos seus descendentes valores, memórias, afetos… ficam perpetuados nos trejeitos e maneirismos de um filho, no gosto musical ou no talento profissional de uma filha, na cor dos olhos de uma neta ou neto. Um filho ou um irmão que se vai deixam conosco experiências vividas, aprendizados adquiridos, lembranças significativas, conquistas compartilhadas, dores e alegrias próprias de cada existência…

A grande questão, para nós que aqui ficamos é: o que faremos com esse legado, com esses dons, com essa herança deixada por todos aqueles que por aqui passaram?

A morte de um ente querido, de um familiar, um companheiro, ou de um amigo próximo nos abala e nos entristece. Somos carentes da presença física, a falta do convívio pessoal nos abate e nos causa dor. Não raro, a partida de uma pessoa muito amada é experimentada de modo tão intenso que, por vezes, a experiência do luto se estende por dias, meses… ou até por anos, quando não bem superada. É importante ressaltar que a vivência do luto é um processo normal e necessário, pelo qual nos permitimos:

  1. externar o sofrimento pela perda de quem amamos
  2. vivenciarmos os rituais civis e/ou religiosos de passagem
  3. adaptarmo-nos às mudanças de rotina sem o ente falecido
  4. ressignificarmos o "vazio" e a falta, conferindo à pessoa falecida uma nova posição dentro da configuração familiar e do contexto social

Uma das estratégias para uma boa e saudável elaboração do luto passa exatamente pela reorientação de seus interesses e desejos para objetos ou atividades que resultem numa produção criativa, à qual se pode ancorar sentidos e significados valorosos para a pessoa.

Nesta produção, pode-se ou não utilizar elementos deixados pela pessoa falecida; o critério a ser considerado deve ser o novo posicionamento que a pessoa falecida assumirá na vida dos que ficam, não mais numa função de dependência ou de suporte – haja vista ela não poder mais cumprir sua função social e psíquica que antes desempenhava – mas uma função eminentemente simbólica.

Sob esta perspectiva, têm-se a assimilação do sentido de que aquele ente ausente não nos pertence mais, que agora ele deverá assumir um novo papel, ou uma nova "missão". Deste modo, o necessário "adeus" simboliza que aquele que se foi está livre, que ele não está mais retido e aprisionado em nossas carências e afetos, e que ele poderá cumprir esta nova função para aqueles que receberam sua herança e seu legado, sejam eles concretos ou subjetivos.

Necessariamente, o reposicionamento da pessoa falecida e de seu papel para os que ficam passa, igualmente, pela adaptação e reorganização das funções sociais dos vivos. E neste panorama é que surge, novamente o questionamento acerca de nossa responsabilidade:

  1. com o legado e com a herança deixada pelos mortos
  2. com a utilização social, para os vivos, de tais elementos

Existem questões práticas sobre o que restou de concreto do falecido: bens imóveis, espólios, dívidas… mas também objetos mais triviais, roupas, livros, papéis… Qual a destinação de cada um desses elementos? O que valerá realmente a pena ser guardado e qual será sua função na vida rotineira? A doação de órgãos, por exemplo, é uma destinação concreta e socialmente responsável, e nesta mesma perspectiva, o que mais de pertencente à pessoa falecida poderia ser doado, como um ato de desprendimento, de despojamento e de caridade para quem mais precisa?

Mas também existem outros bens intangíveis que a pessoa falecida confere aos que permanecem nas estradas da vida. O que fazer com os seus ideais, com os seus valores, com a sua história? Para onde se vão as experiências e os conhecimentos obtidos pelo convívio com aquela pessoa querida que se foi? Suas qualidades e virtudes permanecem com os familiares e amigos viventes, ou foram enterrados na mesma sepultura com o defunto?

É comum que processos de luto mal elaborados não levem em consideração tais aspectos, e que as pessoas se fixem somente na partida do ente querido e no vazio… Mas, que vazio? Para além da presença física, se percebe que muita coisa permanece daquela relação, e que são postas de lado, preferindo-se cultivar a dor e o sofrimento, ao invés de se comprometer com a transmissão e a manutenção desses elementos subjetivos para os que ficam – especialmente para os mais jovens.

Se o ente falecido era uma pessoa alegre, bem humorada, honesta, virtuosa, prestativa, por que não honrar sua partida assumindo para si tais características, perpetuando assim a memória e a personalidade daquele que amamos?

Não podemos, no entanto, deixar de reconhecer que, a depender do nível de relacionamento e do grau de dependência afetiva vivenciada com a pessoa falecida, o processo de elaboração do luto pode não ser resolvido de modo satisfatório, fazendo com que o enlutado desenvolva uma série de comportamentos e reações desconfortáveis, como

  • tristezas e choros repentinos e constantes
  • anedonia (falta de prazer)
  • perda de sentido
  • falta de apetite
  • desmotivação para tarefas rotineiras
  • fixação em recordações e fatos do passado
  • desvinculação social
  • e outros sintomas, tanto psíquicos como físicos

É importante que a família e as pessoas mais próximas estejam atentas ao desenvolvimento e instalação de tais sintomas e sinais após a morte de alguém querido, e que possam fazer o devido encaminhamento, posto que, nestes casos mais agravados, somente com o auxílio de um profissional devidamente habilitado e capacitado – psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas – o enlutado poderá concluir o trabalho do luto e dar prosseguimento à sua vida, deixando os mortos seguirem o seu próprio caminho.

O que se espera ao final de um processo de elaboração de luto bem resolvido é que as pessoas que ficam se sintam restabelecidas em sua capacidade plena de assumirem suas atividades e responsabilidades rotineiras, e que as pessoas falecidas não se tornem um empecilho ou um obstáculo no caminho que nos resta, mas que sejam elementos positivos de fortalecimento dos vínculos e das relações entre aqueles que com elas conviveram.

Escrito por

Saulo Cruz Rocha

Psicólogo Número do CRP: CRP 11/09146

Psicólogo e mestre em psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), atua na clínica sob a perspectiva da psicanálise, atendendo adolescentes, jovens, adultos, idosos e casais. Tem experiência no tratamento da depressão, da ansiedade e nos processos de luto e separação. Desenvolve estudos sobre religião e psicologia.

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