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Suicídio entre jovens: 'Os pais não dialogam com seus filhos'

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Uma jovem de 19 anos transmitiu ao vivo seu suicídio, quando decidiu se jogar na frente de um trem. O que leva uma pessoa a fazer algo assim? Psicólogos falam de falta de diálogo e apoio.

15 Jul 2016 · Leitura: min.
Suicídio entre jovens: 'Os pais não dialogam com seus filhos'

Se você nunca teve que lidar de forma direta com o problema do suicídio na sua família, seguramente conhece alguém (que conhece alguém) que sim. Os casos podem acontecer em diferentes faixas etárias e nunca são fáceis de assimilar e superar.

Também estão as histórias que ganham repercussão nas mídias e redes sociais, gerando comoção e abrindo o debate para outras questões, como falta de controle sobre o que é divulgado, a responsabilidade de quem reproduz a notícia e o efeito que pode provocar em quem está passando por problemas similares.

Em maio, uma jovem francesa de 19 anos usou um aplicativo de celular para transmitir ao vivo seu suicídio, gravando quase 30 minutos de imagens que terminaram com ela se jogando na frente de um trem, na cidade de Égly, a 40km de Paris.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo inteiro. E é importante lembrar que, para cada caso efetivado, há várias tentativas não consumadas, o que agrava ainda mais as estatísticas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte, segundo dados de 2012.

Os números servem para evidenciar a gravidade do tema, considerado pela OMS como um grave problema de saúde pública. Por trás de cada número há uma história de vida, marcada por uma trajetória de sofrimento e, muitas vezes, incompreensão.

O que leva uma pessoa a cometer suicídio? O que está por trás de casos como o da jovem francesa? Como ajudar quem está numa situação de risco? Convidamos dois psicólogos, Leonardo Viana de Vasconcelos Martins e Maitê Hammoud, para responder algumas perguntas sobre o tema. Confira suas entrevistas agora.

Suicídio transmitido pela Internet

MundoPsicologos.com: O caso da jovem francesa é isolado, mas não é único. Qual seria a motivação para um gesto assim?

Leonardo:

O suicídio é um fenômeno complexo e multideterminado. Muitos estudos apontam que em torno de 90% das pessoas que cometem suicídio têm algum transtorno psiquiátrico, embora esse não seja o fator que leve ao suicídio, apenas somando-se a outros fatores. Provavelmente a jovem tinha algum transtorno não diagnosticado, o que é muito comum. Além disso, existem os fatores sociais, familiares e ambientais. Tudo isso deve ser levado em conta.

Maitê:

O fato de filmar o momento de seu suicídio pode estar ligado a diversos fatores. Um deles é a fantasia de tornar-se memorável, o fato de suicidar-se ou cometer um crime de grande repercussão pode trazer a sensação e fantasia de imortalidade e atenção. Outros fatores que acredito que motivam esta forma pública de suicídio é causar sentimentos de culpa e remorso em amigos e familiares ou, até mesmo, uma tentativa desesperada de compartilhar sua dor com os expectadores.

Efeito dominó

MundoPsicologos.com: Você acredita que pode haver uma espécie de efeito dominó se casos assim forem noticiados com maior frequência?

Maitê:

Acredito que possa ocorrer neste caso específico. Por exemplo, a jovem tinha diversos seguidores em sua página. Tais seguidores se identificavam ou a idolatravam por algum motivo, e o fato pode despertar o desejo de seguir os mesmos passos. Por outro lado, a divulgação da notícia com conteúdo informativo, de como agir caso tenha pensamentos suicidas ou conheça alguém que os possua, pode ajudar na conscientização de maneiras eficazes para que o suicídio seja impedido.

Leonardo:

Existe o que chamamos Efeito Werther, que é a imitação de um ato suicida que é amplamente divulgado. Mas isso vai depender muito de como a mídia aborda o tema. Quanto mais sensacionalista, pior. A mídia tem que exercer um papel de informar, orientar. Se o ato for tratado de forma séria e responsável, a chance de ocorrer um Efeito Werther é muito pequena.

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Estatísticas de suicídio entre jovens

MundoPsicologos.com: Vivemos um panorama de aumento de suicídios (ou tentativas) entre jovens?

Leonardo:

Como disse anteriormente, o suicídio é um fenômeno muito complexo. Na minha opinião, está ocorrendo um distanciamento muito grande entre as pessoas, principalmente entre as famílias.

Os pais não dialogam com seus filhos, não fazem parte de forma efetiva da vida dos mesmos. Esse isolamento faz com que seja mais difícil perceber transtornos mentais e alterações negativas de comportamento. Então, muitas vezes o que para um pai é um comportamento normal de adolescente, rebeldia, isolamento, pode ser sintoma de algo mais sério, que, não tratado, pode evoluir para tentativas de suicídio.

Além disso, as redes sociais e a Internet têm aproximado pessoas com interesse mórbido em comum. Existem mais de 7 milhões de entradas no Google sobre como se matar.

Maitê:

O suicídio aparece no gráfico em uma linha contínua, onde fica evidente a ausência de informação e conscientização deste problema, que atinge diversas pessoas (jovens, adultos e idosos), sem ganhar a devida atenção necessária. O que ocorre atualmente é que temos acesso mais facilmente às informações, devido ao momento digital que vivemos. Infelizmente, o Brasil está entre os primeiros no ranking da América Latina, demonstrando sua ineficiência em campanhas que promovam a prevenção do suicídio.

Problemas para encaixar

MundoPsicologos.com: Quais as dificuldades que um jovem que não se "encaixa" precisa enfrentar?

Maitê:

Neste contexto, um jovem que ''não se encaixa'' enfrenta maiores dificuldades de comunicação; por ser mais solitário, poucas pessoas conseguem ter acesso ao conteúdo emocional que ele está vivendo, o que dificulta a possibilidade de entendimento e ajuda para aquela pessoa.

Leonardo:

O ser humano precisa de contato social, faz parte do nosso desenvolvimento. Ser excluído ou não conseguir fazer parte efetivamente de um grupo pode ser muito doloroso para um adolescente, gerando sentimentos de rejeição, baixa autoestima, incapacidade. A sociedade ainda enfrenta muitos tabus com relação às diferenças, as pessoas ainda sofrem por serem gordas, magras, negras, etc. O ser humano, em uma parcela considerável, ainda rejeita seus iguais.

Então é uma busca constante de todos, mas principalmente dos jovens que estão em formação, por aceitação. Ser aceito pelos pais, família, amigos, escola, sociedade. As exclusões geram um sentimento de isolamento e desesperança e podem evoluir para depressão e outros quadros mais sérios.

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Formas de ajudar a quem precisa

MundoPsicologos.com: Para quem está perto, seja familiar, amigo ou conhecido, é possível fazer algo para ajudar uma pessoa com um nível tão profundo de depressão?

Leonardo:

Sim. Primeiramente é a compreensão de que aquela pessoa não está com depressão porque ela quer, e que não é única e exclusivamente a sua força de vontade que irá reverter o quadro. Ainda existe muita desinformação por parte do grande público, há pouca orientação acerca de doenças comuns como a depressão. E há preconceito.

A pessoa é taxada de preguiçosa, acusada de estar simulando, de a depressão ser "sem-vergonhice". Quem está cuidando de uma pessoa com depressão deve romper com esse pensamento equivocado. O importante é dar apoio e suporte, estar com aquela pessoa, mas sem forçá-la ou exigir que ela melhore. A melhora vem através do tratamento, da medicação, da psicoterapia e do suporte familiar.

Maitê:

Sim! Quando o processo de sofrimento é tão intenso, para muitas pessoas a morte parece a única maneira de cessar com a dor. Infelizmente, existe o mito de que aqueles que verbalizam ideais suicidas não irão se suicidar - muitos ainda pensam que ''quem quer não fala, faz'', sem entender que aquela sutil manifestação é um pedido de socorro.

Familiares e parentes, ao perceberem que a pessoa está deprimida e que seu discurso possui conteúdo suicida, de maneira objetiva ou não (muitas vezes o discurso não vem tão claro como ''quero morrer'', pode aparecer como ''eu não sei o que fazer para acabar com tudo isso'', ''eu não tenho mais vontade de viver'', ''nunca vou conseguir melhorar'', ''nada e ninguém pode me ajudar''), deve entender que aquela pessoa possivelmente não conseguirá dar um passo para se ajudar...

Por isso, mais do que orientações, o familiar e amigo deve ter uma postura mais atuante: agendar uma consulta com o psicólogo e/ou psiquiatra, acompanhá-lo na consulta, sentindo-se confortável e disponível participar na primeira consulta, relatando o que percebe, facilitando os dados para uma avaliação mais profunda do profissional, etc.

Se não for possível, procure a ajuda de um familiar que possa ter uma postura mais atuante, seja presente e demonstre-se disponível para compartilhar o sofrimento do outro. Mas vale ressaltar que o acompanhamento psiquiátrico e psicológico são fundamentais para o tratamento.

Sempre indico e divulgo também o trabalho do Centro de Valorização a Vida (CVV), que atua diretamente na prevenção de suicídio, fornecendo suporte emocional 24 horas pelo telefone (141), pessoalmente e por chat. É uma ferramenta que a pessoa pode usufruir a qualquer momento, recebendo apoio necessário para que se fortaleça em um momento crítico.

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Leonardo Viana de Vasconcelos Martins é formado em psicologia e trabalha com atendimento a adolescentes e adultos, utilizando especialmente a Gestalt terapia. Faz parte do PRAVIDA, um grupo de prevenção ao suicídio que atua em Fortaleza, Ceará.

Maitê Hammoud é psicóloga clínica e trabalha com a abordagem psicanalítica. Os atendimentos são indicados a jovens, adultos e idosos, sendo realizados em consultório e também em home care.

Fotos: por MundoPsicologos.com

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Comentários 3
  • Mar santos

    Por que os vícios faz os jovens cometerem suicídio?

  • Equipe MundoPsicologos.com

    Olá, Juney! Para ter uma resposta mais rápida, você pode consultar os especialistas cadastrados no portal, publicando sua dúvida na seção de "Perguntas". Att. Equipe MundoPsicologos.com

  • JUNEY PAULO DE LIMA

    Parabéns pelo assunto de tamanha relevância, uma triste realidade difícil de lidar!