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Niétotchka Niezvânova e o Doutor Dostoiévski

O texto a seguir comenta um livro de autoria do russo Fiodór Dostoiévski, escrito em meados do século XIX, talvez uns 10 anos antes do nascimento de Sigmund Freud.

19 Abr 2016 Terapias e abordagens - Leitura: min.

Santo André (São Paulo) São Paulo

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O prazer em ler Dostoiévski e o enriquecimento cultural que ele proporciona abrange um cenário tão amplo a ponto de trazer contribuições para o meu trabalho como analista.

A literatura está presente na psicanálise a todo momento. Não obstante, arrisco dizer que a psicanálise foi criada com grande embasamento na literatura e, como não poderia se deixar de lado, mais especificamente por causa desse autor, amodiado por muitos leitores cuja obra repercutirá até o fim dos tempos, que é o genial Dostoiévski. Freud lia Dostoiévski tanto a ponto de criar um texto sobre sua obra prima, "Os Irmãos Karamazov", cujo título foi dado como "Dostoiévski e o parricídio".

Neste texto, Freud demonstra quatro traços distintos do autor, sendo que um deles é relacionado a uma possível psicopatologia neurótica cujos sintomas se traduziam por ataques epiléticos.

A interpretação se dá em decorrência da aplicação da teoria do complexo de Édipo relacionada à um desejo inconsciente de assassinar o pai e do conflito que se cria ao se identificar com ele, pois, nas crises de epilepsia, o sentimento de estar fora de si seria relativo à sensação de morte, e isso explicaria criações concernentes aos temas da prática sádica que se presentificam com veemência ao longo de sua obra.

Decidi escrever sobre a contribuição de um livro chamado Niétotchka Niezvânova, que estou terminando de ler, para a psicanálise e para o mundo. É bem provável que o invento do complexo de Édipo na menina tenha passado por essa obra; trata-se de uma menina que passa a sua tenra infância amando seu falido padrasto (acreditando ser seu pai) e desejando matar sua mãe ou fugir de casa com ele, até que um dia isso acontece, mas ele foge dela e morre dois dias depois da morte de sua mãe biológica, abandonando-a à própria sorte.

Órfã, foi adotada por uma família real, que a trata contrariamente ao que estava acostumada, ou seja, com riquezas e todos os balangandãs que transpõem sua experiência de uma infância muito pobre. Apesar disso, Ana é rotulada pela corte e em todas as festividades (exceto pelo príncipe - que, por dó, decide dar a ela todo conforto que não teve) como aquela órfãzinha pobre que teve sorte de ser adotada pela corte real.

Apesar disso, vivia solitária em um andar inferior da casa, longe da princesa que não podia ser incomodada. Pouco mais de um ano depois, voltou de viagem a princesinha Kátia, cuja idade era próxima da idade de Niétotchka, e ela passa a ter com a princesinha uma relação muito ambivalente; no início, muito ódio, depois, tanto amor, até dormirem juntas nuas e se beijarem tanto a ponto de ficarem com os lábios inchados.

A governanta, que presenciou tais ocasiões, contou aos senhorios, que realizaram a separação das meninas: Kátia foi à Europa e Ana foi morar com um casal que não teve filhos, sendo que a mulher, Aleksandra, era filha da princesa de um primeiro matrimônio. A relação matrimonial era bem distante e Aleksandra se resignava quando estava próxima do marido e se sentia livre longe dele. Com o passar dos anos, Ana encontra uma carta de despedida amorosa dirigida a Aleksandra, cujo autor se intitula como S.O. O final ainda não sei, pois não terminei de ler.

Cada frase aplicada à novela Dostoiévskiana, bem como quando cita que Niétotchka teve episódios de doenças que a tiravam da rotina para a instalarem ao leito durante semanas cuja consciência não era plena, demonstra o quanto o espírito psicanalítico se presentificava no autor. Além disso, o detalhe do nome de Ana (Nietótchka), que foi um apelido criado carinhosamente pela sua mãe biológica, iniciado por "niet" (que quer dizer não), e Niezvânova, que dá sentido a uma criatura sem nome, simbolizava certamente criaturas abandonadas e desprotegidas, o que leva a saber sobre o que o futuro lhe prepara.

Parece muito que Dostoiévski leu "Os Três Ensaios Sobre a Sexualidade" de Freud e as possíveis saídas do complexo de Édipo para a menina em um tempo em que a sociedade ocidental estava longe de ser invadida por esta praga que Freud denominou como o inconsciente.

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