É possível se recuperar do trauma de um estupro?

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Uma mulher é abusada sexualmente a cada 11 minutos no Brasil. O outro lado da violência sempre é o trauma, a culpa. É possível que uma vítima consiga se recuperar de uma experiência assim?

17 Jun 2016 · Leitura: min.
É possível se recuperar do trauma de um estupro?

ecentemente, o Brasil foi palco de um crime de estupro coletivo a uma adolescente de 16 anos, violentada por 33 homens no Rio de Janeiro. O fato comoveu grande parte da sociedade e fez reascender o debate sobre a existência de uma "cultura do estupro".

O ocorrido é preocupante não somente pela brutalidade, mas também porque é apenas mais um nas estatísticas do país. Estima-se que uma mulher seja abusada sexualmente a cada 11 minutos, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

E se a cifra não é suficientemente alarmante, lembre-se de que somente chega a ser registrada uma média de 35% dos ocorridos. Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no início do mês, reforça a gravidade das estatísticas.

De acordo com o estudo, uma de cada cinco mulheres com menos de 18 anos já foi vítima de abuso sexual ou estupro. A OMS utilizou dados de estudos realizados entre os anos de 2011 e 2015 para compilar informações sobre 133 países e traçar uma radiografia da violência no mundo, evidenciando a necessidade de criar estratégias de combate.

No mesmo relatório, a entidade aponta que uma de cada três mulheres é vítima de violência, física ou sexual. Na ampla maioria dos casos, o autor é um conhecido da vítima.

O trauma do estupro

Cláudia (nome fictício), de 21 anos, contou na seção de Perguntas do portal que foi vítima de abuso quando criança. Ela foi molestada sexualmente pelo pai, algo que lhe causou muito sofrimento e traumas.

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O outro lado da violência sempre é o trauma, a culpa, que silencia, deprime e, muitas vezes, se converte num fardo demasiado pesado para as vítimas carregarem. Uma grande verdade é que não há por que passar por uma situação assim sozinha. É o que explica a psicóloga Danielle de Almeida:

"A psicoterapia se desenvolve através de uma relação confortável entre paciente e psicoterapeuta, e que possibilita transformação e consciência acerca de sua vida, suas relações, seu jeito de ser! É importante entender, conhecer as declarações e a existência inteira do paciente, para que a maneira de ser e de viver se tornem mais integradas. É no processo terapêutico que será possível mobilizar feridas antigas, sentimentos, emoções, construções abertas, mal resolvidas e que possuem um peso grande no presente , mas que precisam ser elaboradas."

Superar o estupro infantojuvenil

Para falar mais sobre as dificuldades de lidar com um estupro e da importância de haver um acompanhamento profissional, a psicóloga Ussénade Maria de Oliveira concedeu uma entrevista para o MundoPsicologos.com.

MundoPsicologos.com: A ajuda psicológica funciona em qualquer situação? Qual a principal condicionante para que uma terapia seja realmente efetiva?

Ussénade: O abuso sexual contra crianças e adolescentes tem efeitos destrutivos no desenvolvimento biopsicossocial infantojuvenil, por isso é necessário adotar medidas protetivas urgentes, já que esse tipo de violência é considerado pela OMS como um grave problema de saúde pública.

Para que a terapia com crianças vítimas de abuso sexual seja efetiva, é importante trabalhar a criança e envolver a família nesse processo. Faz-se necessário avaliar as condições físicas, emocionais e comportamentais desencadeadas pelo abuso, além de observar o contexto familiar e social desta criança, para que se possa fazer os encaminhamentos e procedimentos necessários, visando garantir a segurança e o bem-estar físico e psíquico desta criança.

MundoPsicologos.com: Existe um tempo prudente que deve ser respeitado antes de levar uma criança ao acompanhamento psicológico?

Ussénade: Bom, entendo que crianças vítimas de abuso sexual demandam uma certa urgência no tratamento psicológico, com resposta imediata, tanto médica quanto psicológica. Sua saúde física e mental estão fragilizadas e requerem uma escuta diferenciada.

Nesse sentido, o psicoterapeuta deve ser bastante empático, cauteloso e saber respeitar os limites dessa criança, que está assustada, fragilizada emocionalmente e confusa. Daí a importância de criar um vínculo de confiança com essa criança, para entender o seu mundo (interno e externo).

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MundoPsicologos.com: Qual a importância da família na recuperação da vítima?

Ussénade: Entendendo que o abuso sexual é um problema que envolve fatores de ordem sociais e de saúde, é importantíssimo o papel da família no processo de tratamento da criança vítima de abuso sexual, até porque a maioria dos casos ocorre no ambiente familiar, segundo estudos.

Outro aspecto importante identificado é a presença de outras formas de violência no contexto familiar da vítima, tais como, negligência, abusos psicológicos/físicos e violência física conjugal.

A família também é peça importante porque a revelação do abuso sexual modifica a configuração familiar, uma vez que há um rompimento das relações conjugais ou o afastamento da criança do convívio com os familiares.

MundoPsicologos.com: A que sinais os pais/responsáveis devem estar atentos para identificar um possível abuso/estupro?

Ussénade: As consequências da violência sexual na infância ou adolescência podem se apresentar através de diferentes sinais: desmotivação, tristeza constante, medo de adultos (normalmente do mesmo sexo que o abusador), tiques, baixa autoestima, dentre outros.

Você saber o que é cultura do estupro?

O termo cultura do estupro vem sendo usado desde a década de 70 e se refere às formas usadas pela sociedade para responsabilizar as vítimas pelo abuso sexual sofrido, contribuindo para naturalizar um comportamento sexual violento por parte dos homens.

Estamos falando daquele "ninguém mandou vestir roupa tão curta", "se tivesse em casa, não teria acontecido", "do jeito que se comportava, estava pedindo", "não deveria sair sozinha", "se fosse santa, estaria na igreja", dentre outros muitos exemplos que não deixam de alimentar uma sociedade machista e sem igualdade de direitos.

Fotos: por MundoPsicologos.com

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Comentários 6
  • zainedin

    fui molestada aos meus 9 anos pelo meu tio, aos 13 pelo avo do meu melhor amigo. aos 14 fui estrupada pelo namorado de uma amiga da minha mãe. tentei seguir em frente e comecei a namorar um menino. aos 5 meses de relação ele nao forçava a barra e nem tocava no assunto "sexo''. mais entao outro abuso. aos meus 16 fique tão angustiada que tentei me matar pq achava que a culpa era minha, sentia nojo do meu corpo sentia raiva de mim mesma por não ter tido forças pra evitar e contar pra alguem o que tinha me ocorrido, hoje aos meus 27 anos ''superei'' tive 3 filhas e namoro. mais tenho medo de acontecer novamente ou se repetir a historia com alguma das minhas filhas. meu namorado sabe de tudo e me ajuda dia a dia com muito esforço e compreensão .....

  • Cleidiane Santos

    Fui violentada sexualmente. Não lembro quantos anos eu tinha.só seii que eu era muita pequenina. Isso sim arrastou durante Minha infância.so parou quando resolveu sair de casa.já com meus 13.anos.já marquei consulta com psicologia.mas nao comsegui ir.sexo pra mim nem sinto falta..sou muita estressada. Não gosto de suarda. Quero ficar quentinha no meu quarto escuro sozinha. Prefiro assim.

  • maria cleuza lima

    como saber se fui abusado ?tem essa duvidas /

  • Thayssa mello

    Sofri um abuso por parte de meu primo. Me sinto um lixo, incapaz de ter evitado a situação. Fui falar com a Minha mãe sobre o ocorrido,e ela me disse: "bola para frente,não precisa ficar assim. Até pq vc poderia ter evitado" agora, como eu vou superar um trauma que nem mesmo minha mãe me apoia? Estou muito mal.

  • Li Pereira

    Eu passei por abuso sexual na infância a está me fazendo mal até hoje. Preciso de ajuda, mas estou desempregada e não tenho condições de pagar ara fazer terapia. Agradeço desde já se algum psicológo ou terapeuta puser me ajudar

  • amadeo mido

    geralmente muitos conselheiros dizem q a situação eh noramal frente a cara do paciente e lançam mao do paliativo, quando a medicina vai deixar de ser tao avarenta e por em pratica a reabilitação integral da classe moribunda. Serah q eh uma questão de jogo?.