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Santo de casa em busca de milagre

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Este texto trata-se da descrição de um sintoma infantil, dos acontecimentos que ocorreram concomitante a ele e suas consequências.

18 NOV 2016 · Leitura: min.
Santo de casa em busca de milagre

Começou a roer as golas das roupas, tal como um ratinho. Começou a ranger os dentes tal como uma serrinha. O incômodo tomou conta da mente da mãe e do pai. Até os avós perceberam o sintoma.

O vovô disse que o netinho tinha visto alguém fazendo aquilo e estava apenas repetindo. Ele ainda não sabia que, apesar de sermos milhares neste mundo, o sintoma responde a uma demanda pra lá de individual. A vovó, após ouvir uma breve explicação da nora, disse que entendia muito bem.

Agora até ela tinha começado a roer as unhas e, se antes achava que bastava um pouco de esforço para parar, agora sabia que aquilo era "mais forte do que eu". A ajudante da casa tinha a convicção de que bastava falar para ele parar de fazer aquilo que daria tudo certo. Ingenuidade!

A mamãe, que já tinha lidado com tantos sintomas infantis, se viu em difícil situação. Perguntava a si mesma o que estaria acontecendo com seu pequenino. Tomou como medida o que faz diariamente: ouvir. Não uma escuta objetiva, e sim a que busca ouvir o que as palavras não dizem.

Começou a observar os momentos em que seu pequeno filho/paciente usava a boca para o fim que trazia o incômodo e viu que eram vários. Um belo dia, ele acordou e disse à mãe: "Tive um pesadelo."

A psicanalista pediu o relato. Ele disse que um grande tubarão queria engoli-lo. Percebeu seu sofrimento, como estava se sentindo pequeno diante de algo grande. E lá no sonho, estavam os dentes e a boca, tal como no seu sintoma. Então, o quê, tão grande, o estava ameaçando?

Os dias passaram, conversas aconteceram. Discutiu o caso com uma amiga de boa "escutatória". Hipóteses foram levantadas. Em certo momento, ao fazer o para casa, o pequeno, novamente, disparou os dentes na gola da camisa.

Finalmente a causa de tanta agonia ficou evidente. Era o mais novo aprendizado da sua vida: a escrita. Geralmente tinha facilidade para aprender as coisas - mas com a escrita não estava sendo bem assim, dado aos muitos símbolos. E passou a acreditar que não aprenderia porque achava que estava demorando.

Bingo! Com pais tão apressadinhos que ultimamente tinham mil planos em ação, como ele poderia "se dar ao luxo" de demorar a aprender? Até parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas tem, sim, senhor. Melindres dos sintomas. Um problema daqui se desloca para lá.

Dado ao entendimento, a mãe, em tom de psicanalista, conversou com o marido, traçaram planos de "quietude", de colocarem os desejos em ação, mas com tempo de qualidade. Foram marcados, tatuados, com mais uma fala do pequeno: "São os pais que decidem trazer os filhos no mundo, então têm que cuidar deles."

Em outras palavras: os planos de vocês são muito importantes. Mas há cinco anos vocês optaram por outro plano que demanda mais de vocês, agora têm de ir com mais calma, não estou aguentando o ritmo.

Feito isso, o ratinho foi embora, a serrinha está indo mais devagar, a tranquilidade ganhou espaço e o aprendizado segue paulatinamente, como tem de ser, para o pequeno e para os grandes também.

Tânia, em outubro de 2015, tentando salvar a gola das roupas e a serenidade

Escrito por

Tânia Maria Magalhães

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