O divã cabe na(s) tela(s)?

Contemplando o momento da pandemia do Corona vírus e a necessidade do "Isolamento" dos sujeitos, trago aqui algumas reflexões acerca das necessárias adaptações no atendimento online.

13 ABR 2020 · Leitura: min.
O divã cabe na(s) tela(s)?

Contemplando o momento da pandemia do Corona vírus e a necessidade do "Isolamento" dos sujeitos, as incertezas e as angústias oriundas do fenômeno, esta é a primeira de uma série de Reflexões e Questionamentos Psicanalíticos com vistas à manutençao de nossa saúde psíquica. Diante da impossibilidade dos atendimentos presenciais a análise foi restringida ao virtual. Como estamos lidando com esse desafio de manejar toda a complexidade do encontro analítico via videochamada de whatsapp?

Cabe o divã nas telas? Quais os impactos da irrupção da virtualidade na clínica psicanalítica?

*Notas sobre o atendimento online (caso fictício baseado em fatos reais) de uma mulher de setenta e poucos anos de idade*

Há mais de um ano em análise, Clarissa é daquelas pacientes que muito valoriza o espaço analítico, momento raro no qual relata sentir se escutada e levada a sério, onde vem realizando uma avaliação de seu percurso na vida, e começando a se haver com as questões da finitude humana. Ela me contou em nossa penúltima sessão presencial (antes das orientaçoes acerca da recomendaçao do fica em casa por conta do Covid-19) que ganhara um celular novo do filho, o que estava deixando a "muito ansiosa por conta da dificuldade de aprender tanta coisa nova ao mesmo tempo, e com pouca ajuda".

Bom, essa paciente mal teve tempo de aprender a manejar o whatsapp e fomos atravessados pela Pandemia do Covid-19. Dentre as possibilidades alternativas para o seguimento da análise estariam a ligação telefonica ou a videochamada via whatsapp, o que ela me relatou via telefone não ter ideia de como fazer. Via chamada telefonica testamos e a primeira videochamada de Clarissa foi com a sua analista, funcionou e mais do que isso: conteu e acolheu uma angústia desorganizadora diante de sintomas de gripe que ela apresentava somado ao fato do seu "isolamento" total (uma vez que ela mora sozinha).

Em uma sessão de muita densidade, Clarissa encarou o tema da morte de forma límpida e verdadeira, mostrando se desesperada com a ideia de morrer com tantos rancores por dissolver... Mais do que utilizar o celular novo, "presente do filho" para realizar sua sessão, ela caminhou pela casa mostrando para sua analista onde faz sua leitura, onde guarda seus livros, a capa de um que está gostando muito... E em uma espiral de associações livres fez sua sessão acontecer. De volta à sala, ela conta o que vê, sem desta vez mostrar com a camera do celular, o móvel herdado da sua avó. Ela relembra que ela é a mais velha da familia e que a morte se aproxima como uma visitante não desejada. Assume seu medo como não havia sido possível até então, e agradece por acreditar que ela ainda pode aprender.

*Notas sobre Psicanálise via telefone (caso fictício baseado em fatos reais): Explorando as possibilidades de atendimento para além do presencial.*

Com a pandemia (Covid – 19) e as necessárias adaptações nos atendimentos psicológicos, as sessões com Beatriz (paciente jovem de 35 anos de idade) passam a acontecer a distância, e por questões técnicas via chamada telefônica. Uma situação nova tanto para analista quanto para a paciente. Em busca de um lugar que lhe garantisse privacidade, Beatriz escolheu uma área de campo, próximo à sua casa. Ventava muito, e uma presença extra foi conferida à paciente: seu fiel cachorro.

Algumas questões pululam por aqui: Estaria Beatriz assistida e acompanhada por seu cão terapeuta? A presença física do cachorro realiza em alguma medida a função de materialização corpórea do analista? Que falta podemos pensar que a presença física da analista fez nessas sessões? Que experiências e afetos foram disparados por conta de todas as alterações? Como reverberam os efeitos de um encontro que se dá apenas pela palavra falada? Comprovando o simbolismo do setting, o quanto este espaço analítico pode surgir nos mais inusitados locais físicos, observamos o ambiente (natureza) prestar se como suporte à esse momento analítico. Afinal setting refere prioritariamente ao "local interno" criado na relação analítica. A Psicanálise acontece, como dizia Anzieu, naquele setting que preserva a possibilidade da escuta e da transferência.

Escrito por

Brunella Rodriguez

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