A felicidade como uma questão

A noção de felicidade como todo seu espectro (ser feliz, buscar felicidade..) já foi estudada desde a Grécia antiga até os tempos atuais, onde teve inúmeras significações...

14 MAI 2020 · Leitura: min.
A felicidade como uma questão

A noção de felicidade como todo seu espectro (ser feliz, buscar felicidade..) já foi estudada desde a Grécia antiga até os tempos atuais, onde teve inúmeras significações. Para o saber da psicanálise, a busca da felicidade se apresenta como um dos nomes do impossível, sendo consoante ao complexo programa do princípio do prazer (SANTIAGO, J. 2008).

Freud(1905) escreveu que o homem é um incansável caçador de prazer, onde sua vida está pautada na busca por prazer e a evitação de desprazer, pautando-se então na busca da felicidade. Porém, ao inserir-se na sociedade, Freud(1930) diz que o sujeito deve renunciar parte dos seus prazeres em prol do convívio social e em troca, recebe da sociedade alguns prazeres sedativos para suportar a vida. É a partir desses prazeres sedativos e parciais, que o sujeito gerencia sua dor de ser castrado em não poder ter uma satisfação plena.

Hoje percebemos que a felicidade se apreende numa noção de uma busca individualizada, solitária. A cultura capitalista que nos circunda, fez com que a felicidade fosse passível de ser taxada como um produto a ser vendido. Ao comprarmos um refrigerante, vemos no rótulo escrito "abra a felicidade", em lojas de eletrodomésticos, logo na entrada podemos ler "vem ser feliz", os supermercados operam com o slogan "lugar de gente feliz" e assim a felicidade vai sendo objetificada e consumida. Sendo assim, a felicidade estaria ligada a uma lógica de possessão, que pode ser traduzido em: quem tem dinheiro compra, quem não tem é infeliz.

O aspecto que funda a civilização que é a impossibilidade de satisfação plena, faz com que o sujeito busque sempre usufruir dos prazeres parciais proporcionados pelo mercado, numa lógica de consumo, o sujeito se aliena ao que lhe é oferecido numa fantasia de que determinados objetos, status e/ou ideologias lhe trarão a felicidade caso sejam comprados e consumidos. No entanto, por serem apenas sedativos, exigem um investimento constante nestes para que se haja o efeito compensatório de evitar o desprazer.

A lógica da cultura capitalista, que objetifica a felicidade como produto consumível, tem como consequência uma fantasia de facilidade em se desfazer do sofrimento, afinal, basta "abrir a felicidade" do refrigerante que as coisas milagrosamente se ajeitam. Na verdade, é só um tamponamento da dor, não fazendo com que esta deixe de existir. O que se vende indiretamente a partir destes produtos é a ideia de que é possível uma vida sem sofrimento, caso tenha dinheiro para pagar pela felicidade. A psicanálise por sua vez, vai na oposição deste discurso, resistindo a entrar nesta lógica, colocando em questão os desprazeres da vida do sujeito, negados até então.

Na clínica psicanalítica, o que se escuta dos analisandos, são discursos permeados de uma crise dessas satisfações. O sujeito que busca análise, não consegue mais tirar destes objetos, o consumo necessário para a sua satisfação, onde o sentimento de desamparo, de desgosto com a vida e de infelicidade, aparecem como prova dessa insatisfação. O processo de análise encontra justamente o limite entre essa busca da felicidade e o impossível da satisfação.

Como sair deste entrave? Pergunta cara demais para ser generalizada, necessitando sempre de um olhar individualizado. Porém, possíveis saídas são consoantes a percepção do próprio sujeito em se colocar como faltante, compreendendo que nada lhe trará satisfação plena e de que sua felicidade não é responsabilidade de nenhum objeto e nem de ninguém.

Escrito por

Túlio Bueno Rocha Martins Psicólogo

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Bibliografia

Freud, S. (2017). Obras Completas: O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Companhia das Letras.

Freud, S. (2011). O mal-estar na civilização (PC Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras.(Trabalho original publicado em 1930).

Santiago, J. (2008). Freud e sua política da felicidade. Rev Estudos Lacanianos, 1(2), 1-14.

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