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A ciência versus a literatura de autoajuda: uma convivência (im)possível?

A literatura de autoajuda é científica? Posso substituir um processo psicoterapêutico por leituras ou palestras de autoajuda? E os “gurus” da autoajuda, são eles fundamentados pela ciência?

16 SET 2019 · Leitura: min.
A ciência versus a literatura de autoajuda: uma convivência (im)possível?

Livros, palestras, cursos de imersão, programas, grupos presenciais, filmes e até sites e aplicativos de celular. Toda ajuda é válida quando se pretende alcançar um objetivo, não é mesmo?... Ou não?

O gênero de produtos e serviços conhecidos como sendo de autoajuda configurou-se em um filão largamente utilizado atualmente. Basta entrar numa livraria e constatar que existem seções exclusivas (e bem extensas!) para livros de autoajuda se propondo a dar orientações para todo tipo de demanda. Conflitos de relacionamento, convivência conjugal, dilemas intergeracionais (entre pais e filhos ou entre grupos etários), vida amorosa, desenvolvimento afetivo e emocional, planejamento financeiro, lapsos de memória, exercícios de cognição, carreira profissional, perda ou ganho de peso, empreendedorismo e até cura da depressão e outras enfermidades... para tudo, praticamente, já foi escrito um "manual prático" ou um "guia passo a passo" com o intuito de proporcionar aos seus leitores um conteúdo motivacional ou de referência para que se sintam capacitados a uma mudança em suas vidas.

Parte da credibilidade de tais publicações é propagada pelo fato de que muitos de seus autores apresentam como cartão de visita extensos currículos, ostentando PhDs e MBAs em profusão, além de diversas outras publicações no ramo. O que, então, difere tais conteúdos denominados de autoajuda da literatura reconhecida como científica?

De modo geral, a literatura científica passa por um processo conhecido como validação dos pares, ou seja, por uma verificação feita por outros cientistas e estudiosos da mesma área. Eles atestam que aquele conteúdo foi produzido seguindo um rigoroso método de estudo, embasado teoricamente em pesquisas anteriores, e desenvolvido por meio de levantamentos e/ou observações que são posteriormente articuladas, confrontadas e discutidas de modo crítico e analítico com os demais pesquisadores contemporâneos. Esta produção pode, então, ser considerada ciência, e ser divulgada em revistas e periódicos especializados, congressos e simpósios científicos, além de, muitas vezes, constar em teses e dissertações publicadas por universidades. É, pois, fruto de uma ampla rede de pesquisa e estudos, fundamentada por toda a bagagem científica produzida historicamente.

Por sua vez, a literatura de autoajuda geralmente é elaborada por base em percepções particulares ou nas vivências do próprio autor. Apesar de muitas dessas obras citarem estudos e pesquisas, e de até lançarem mão de técnicas validadas cientificamente, suas considerações ou resultados carecem de validação e, por conseguinte, não podem ser generalizados – ou seja, não surtem efeito se aplicados amplamente ou se adotados por qualquer pessoa indistintamente – e nem reconhecidos por comprovação científica. Em geral, seu conteúdo é tido como genérico, ou seja, é apresentado por meio de fórmulas e receitas que, supostamente, funcionam em qualquer tipo de situação, ambiente ou cultura, a depender somente do nível de introjeção das mensagens ou comandos oferecidos e da determinação e perseverança do leitor em aplicá-las em sua vida.

Logicamente, não podemos negar que muitas pessoas se beneficiaram e tiveram suas vidas transformadas a partir de um conteúdo de autoajuda. Uma frase de efeito dita por um palestrante eloquente ou uma história ficcional relatada numa escrita envolvente podem, muitas vezes, servir como catalisadores emocionais e motivacionais que, de certo modo, "despertam" o sujeito para aquilo que precisa ser feito, o mobilize para uma tomada de atitude e, assim, se inicie um processo de mudança. O problema, entretanto, reside no fato de que muitos desses conteúdos são vendidos como uma "chave mestra" capaz de resolver todos os problemas, sem considerar as particularidades de cada pessoa e sem se aprofundar na complexidade de cada situação. Não se alerta explicitamente que "cada caso é um caso", e o que funcionou com um indivíduo necessariamente não deva funcionar para todos. No fim das contas, o conteúdo de autoajuda abandona o sujeito em suas próprias contingências sob a máxima de que "vai dar tudo certo, só depende de você!", ou – pior! - "seu resultado será diretamente proporcional ao seu investimento", seja ele de tempo ou financeiro. Não à toa, os "gurus" da autoajuda são, em geral, muito bem sucedidos financeiramente, não necessariamente em decorrência de suas fórmulas serem eficazes, mas principalmente por serem eles, invariavelmente, excelentes comunicadores e exímios vendedores de ideias.

Há de se reconhecer a espetacular capacidade mobilizadora desses autores e seu incrível poder de persuasão. São campeões de vendas e recordistas de audiência, seus nomes são conhecidos nos mass media e seu público é fiel. Nisto, de certo modo, se denota, por outro lado, o quanto que a ciência acadêmica ainda está reclusa nos muros das universidades e laboratórios, o quanto que seus resultados não são amplamente divulgados e popularmente reconhecidos, o quanto que – muitas vezes – suas publicações são restritas e pouco acessíveis, e o quanto que os estudiosos e cientistas ainda estão distantes da sociedade, não se fazendo compreender e se fechando em glossários e vocabulários extremamente técnicos e sem significado algum para as pessoas comuns. É um mea-culpa que precisa ser levado em consideração, e cuja lacuna possibilitou o crescimento e a disseminação de toda sorte de conteúdos pseudocientíficos.

Isto posto, é errado se procurar conteúdos de autoajuda? Eu diria que não, desde que a pessoa que se valha deste recurso não o tome como uma verdade ampla e absoluta – ela é pessoal e pontual – ou como um substituto de técnicas e métodos cientificamente comprovados e atestados quanto à sua eficácia. É comum que os autores de conteúdos de autoajuda considerem suas orientações e abordagens como métodos de aprendizagem, todavia, em muitos casos elas mais se assemelham a práticas de aconselhamento psicológico e de orientação vocacional e de carreira, se apresentando com um destacado viés psicoterapêutico (apesar de a maioria negar esse aspecto). Utilizam-se, para tanto, de jargões ou termos da psicologia, da pedagogia, da filosofia ou das disciplinas de gestão, tais como: maiêutica, Gestalt, conscientização (awareness), modelagem, condicionamento e dessensibilização, Inconsciente, empoderamento (empowerment), autogestão e muitos outros. Entretanto, as diferenças entre a autoajuda e a ciência são profundamente metodológicas e epistemológicas (ou seja, nos seus fundamentos filosóficos e conceituais), não havendo confusão entre as duas pelo mero compartilhamento de termos.

Na psicologia, por exemplo, cada ser humano é reconhecido como um ser único, com seus anseios, suas experiências, seus desejos singulares. O profissional psicólogo leva em consideração todas essas particularidades e especificidades da pessoa que o procura, e dará a ela todo o suporte e o acompanhamento necessário segundo abordagens e procedimentos testados e amplamente desenvolvidos, e com teorias muito bem estruturadas e comprovadas no decorrer de décadas de estudos e pesquisas. As demandas de cada cliente são tratadas do modo como convém em suas pessoais particularidades e de cada história de vida irrepetível, e não em "escala industrial", como se o problema apresentado fosse resolvido com uma fórmula pronta ou com gabaritos pré-fabricados. Alguns livros e conteúdos motivacionais podem até servir como instrumento auxiliar da terapia, mas nenhum deles poderá substituir a riqueza da experiência advinda de uma relação terapêutica entre o cliente e o psicólogo.

Escrito por

Saulo Cruz Rocha

Psicólogo Número do CRP: CRP 11/09146

Psicólogo e mestre em psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), atua na clínica sob a perspectiva da psicanálise, atendendo adolescentes, jovens, adultos, idosos e casais. Tem experiência no tratamento da depressão, da ansiedade e nos processos de luto e separação. Desenvolve estudos sobre religião e psicologia.

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Bibliografia

  • (Adaptado do artigo "Psicologia pra quê? Dialogando sobre a importância da Psicologia no mundo atual", de Saulo Cruz Rocha. In: Psicologias em reflexão. Fortaleza: Editora Premius, 2014).

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