Psicologia e religião: práticas e saberes distintos

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Você já ouviu falar sobre “psicologia cristã”? E “psicoteologia clínica”? E sobre “psicologia do espírito”, já ouviu? Pois saiba que isso “non ecziste”!

7 Out 2019 · Leitura: min.
Psicologia e religião: práticas e saberes distintos

Psicóloga cristã, psicologia do espírito, psicoteologia clínica, psicologia budista, terapia de vidas passadas, psicólogo xamã, psicoespiritualidade... Você já ouviu falar sobre algum desses termos?

De tempos em tempos, surgem nas redes sociais discussões acerca da utilização da psicologia por determinados grupos religiosos, como uma forma de dar lastro a práticas de religiosidade ou até de estabelecer alguma fundamentação científica de dogmas ou crenças de específicas igrejas, seitas, denominações religiosas, ideologias ou correntes místicas.

Existem casos, inclusive, em que psicólogas e psicólogos ligados a tais grupos ou posições ideológicas vêm a público defender uma prática de religiosidade ou de espiritualidade em suas atuações profissionais, propondo intervenções pretensamente terapêuticas baseadas nas convicções doutrinais de sua crença.

Antes de mais nada, é sempre importante reafirmar: a psicologia não se propõe a substituir o saber religioso e as experiências de espiritualidade que uma pessoa possa ter, e muito menos se coloca como contrária aos benefícios que a vivência religiosa possa oferecer ao homem. Pelo contrário, a psicologia, como ciência, considera a religião e a espiritualidade como aspectos eminentemente humanos, com influências tanto em sua vida social quanto pessoal.

Neste sentido, o ser humano é considerado dentro de uma dimensão "bio-psico-socio-espiritual", ou seja, integralmente, e deve ser respeitado em suas crenças e seus valores. Deste modo, a psicologia se coloca, diante da religiosidade, como uma outra linguagem, um outro saber diferenciado e qualificado, que, assim como as demais ciências, servem para promover o bem-estar e a saúde do homem.

No decorrer da história, muitos foram os psicólogos e psicólogas que desenvolveram estudos sérios acerca da interação Psicologia-Religião-Espiritualidade. A literatura científica contém diversas obras, livros e artigos abordando temas como a história da religião, as raízes ancestrais da espiritualidade, o desenvolvimento de escalas de avaliação sobre espiritualidade/religiosidade, a dinâmica psíquica das crenças, análises sociológicas e antropológicas da religião, dentre outros.

Poderíamos destacar, por exemplo as obras desenvolvidas por Sigmund Freud, Erich Fromm, Viktor Frankl e Carl Jung dentre algumas que se destacam com estudos acerca da interface Psicologia e Religião, a partir de uma visão e de métodos estritamente científicos.

Com base nesses e em outros estudos, diversas teorias, abordagens, técnicas e instrumentos foram sendo reconhecidas no decorrer dos anos como eficazes para o tratamento do sofrimento psíquico. Entretanto, a Psicologia em nenhum momento se utilizou de crenças ou dogmas do saber religioso para embasar suas práticas, sob a perspectiva de que, como ciência, ela deve estar a serviço de todos, indistintamente de sua fé – ou mesmo da ausência dela.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo, em seu Artigo 2º, impede que o psicólogo, no exercício de suas funções profissionais, induza a qualquer tipo de convicção religiosa, moral, ideológica, política, filosófica, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito.

Também veda ao psicólogo a sua vinculação profissional a qualquer serviço que não seja regulamentado ou reconhecido pela profissão. Tal cuidado visa respeitar toda e qualquer convicção religiosa que os usuários da Psicologia possam ter, posto que a pretensa existência de uma "psicologia cristã" ou de qualquer outra crença, estaria inevitavelmente comprometida com as doutrinas particulares desta denominação.

O mesmo se pode afirmar da prática, a qual deve estar fundamentada por sólidas bases científicas, não cabendo ao psicólogo se utilizar ou recomendar orações, cultos, cerimônias religiosas, meditações de viés espiritualístico, ritos ou objetos de cunho místico.

Tal impedimento, além de se justificar pelo caráter de não-cientificidade de tais práticas, pode ser ilustrado da seguinte forma: do mesmo modo que um pretenso "psicólogo budista" poderia indicar a prática da meditação em seu consultório a um cliente de fé muçulmana, um "psicólogo espírita" também poderia encaminhar um paciente católico a um ritual mediúnico, ou um "psicólogo ateu" poderia propor a um cliente evangélico a renúncia a sua crença no criacionismo... As combinações seriam inúmeras!

Por outro lado, ao se fundamentar por estudos e observações científicas, a Psicologia pode ser utilizada por qualquer pessoa, independente de suas crenças pessoais, com isenção, autonomia e garantia de validação. O caráter laico da Psicologia, como ciência e profissão, garante o respeito a todas pessoas e a suas convicções religiosas.

Entretanto, ainda pode haver alguém que pense: "Não preciso de psicólogo. O meu Deus é maior que os meus problemas..."

Ora, frente a uma dor física, qualquer pessoa religiosa pode orar para que Deus a cure, mas nem por isso ela abrirá mão do uso de um analgésico ou de se consultar com um médico. Do mesmo modo, em meio a um mal-estar ou a um sofrimento de ordem psíquica, o auxílio do profissional psicólogo se faz necessário tanto quanto a fé na cura divina. E, para os que creem, não poderia a psicologia ser um instrumento de Deus para o restabelecimento de sua saúde? Vale ressaltar, novamente, que a psicologia respeita todo o tipo de crença, e defende, inclusive, o direito ao exercício livre da espiritualidade. Deste modo, ela não se propõe a lançar mão de práticas de religiosidades específicas ou de valores dogmáticos em suas terapêuticas ou diagnósticos, de modo a garantir sua isenção e seu caráter laico, não dando ênfase a uma determinada religião ou crença sobre as demais.

Caso você saiba de algum psicólogo que esteja vinculando seu título profissional a alguma religião, corrente mística ou de espiritualidade, ou de qualquer outra pessoa que esteja ofertando serviços de Psicologia sob algum viés religioso, denuncie ao Conselho Regional de Psicologia de sua região, o qual investigará se o profissional cometeu alguma infração ética e fará os devidos encaminhamentos.

(Adaptado do artigo "Psicologia pra quê? Dialogando sobre a importância da Psicologia no mundo atual", de Saulo Cruz Rocha. In: Psicologias em reflexão. Fortaleza: Editora Premius, 2014).

Escrito por

Saulo Cruz Rocha

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