Bater a cabeça: uma criança com transtorno do espectro autista

Relato uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (autismo) que apresentava o comportamento de bater a cabeça nas seguintes condições: ausência de contato físico.

10 MAI 2016 · Leitura: min.

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Bater a cabeça: uma criança com transtorno do espectro autista

É com enorme prazer que venho compartilhar esse relato após algumas pessoas citaram sobre crianças que batem a cabeça.

Tive contato com uma estagiária que me deu uma maravilhosa notícia sobre a evolução de um caso que eu estive envolvido em 2015. Por isso vou reproduzir na íntegra aqui o caso de uma criança muito especial que eu comecei a atender naquele ano.

Relato do caso

Para nós o seu nome vai ser "Nã". Escolhi esse "nome" porque essa era a expressão verbal falada mais fácil de identificar, que expressava o "não".

Quero acrescentar que em geral eu sempre falarei sobe o que eu faço nas situações que escrevo. Isso significa que eu apliquei tudo o que estou descrevendo, e caso seja uma condição não testada, farei essa ressalva. Portanto tudo o que você ler aqui ou em outras publicações minhas são reproduções testadas pessoalmente.

O início

Quando conheci Nã ele estava agarrado à sua mãe. Lindo, franzino e assustado. Tinha cerca de seis anos, usava um protetor de cabeça e tinha uma marca roxa na testa ("galo"). A mãe relatou inicialmente que ele sempre precisava de contato físico, caso contrário iria bater a cabeça (comportamento alvo). Ela falou sobre muitas outras coisas particulares dele que vou omitir.

A primeira vez que levei-o para a sala, andamos de mãos dadas. Suas pernas dobravam na altura do joelho e pendia a cabeça para o lado, que era um possível sinal de que buscava chegar ao chão e bater a cabeça. Dentro da sala ele se projetava em direção à parede e chorou ininterruptamente.

Durante uma sessão de quatro horas eu estive abraçado a ele com um dos braços, sentado de frete ou por trás, fazendo todos os tipos de interação e uso de objetos. Nã olhava para cima e fazia movimentos com a cabeça.

Raramente me olhava ou fixava o olhar em alguma direção. Havia uma frequência alta de projetar a cabeça em direção à parede. Todos os brinquedos ou qualquer outro objeto que lhe entregava eram arremessados. Quando andávamos, enquanto segurava sua mão, ele repetia o movimento de dobrar os joelhos e projetar a cabeça. Nesta primeira sessão o choro só foi interrompido quando ofereci seu lanche e posteriormente o almoço.

Quando não queria algo, batia a mão, encerrava o choro e por segundos olhava para o alimento ou objeto lançado ao chão. Esse quadro teve pequenas modificações em uma semana e ele começou me olhar,olhar ao redor da sala e a andar mais tempo sem dobrar os joelhos.

Um mês de terapia de quatro horas por dias e Nã chorava por poucos momentos, as vezes mais em dias específicos e já interagia comigo. Me olhava e respondia à programação de ensino criada para ele. Foi introduzida uma estagiária em psicologia para aprender o projeto geral de atendimento.

O protetor de cabeça foi removido e indicada essa remoção apenas comigo. O comportamento de arremessar objetos foi direcionado ao jogo com boliche e ele começou a rir quando jogava a bola. A primeira vez que o vi sorrindo foi incrível. Foram introduzidos outros jogos de arremesso. Foram introduzidas tentativas de remoção integral do contato, progressivamente.

Dois meses de terapia e Nã já estava generalizando o contato com outras pessoas, fazendo passeios curtos com a estagiária e outras pessoas, monitorados por mim. Fazíamos aproximações sucessivas de outras crianças, sentando com Nã ao lado, ajudando-o a jogar a bola para outras crianças e a receber a bola jogada. A remoção integral de contato físico obteve evoluções e Nã começou a segurar minha perna, sem necessitar segurar minha mão o tempo todo.

Três meses de terapia e Nã continuou evoluindo. Começamos um treino para reduzir o comportamento de arremessar coisas. Já estava fazendo contatos sociais e fazia treinos de andar sem contato físico, andando entre eu e a estagiária em curtos percursos (um metro). A frequência de tentativa de bater a cabeça reduziu muito em comparação ao primeiro dia de atendimento.

Nos meses seguintes Nã evoluiu consecutivamente, fazendo percursos curtos de andar sozinho. A frequência de tentar bater a cabeça estava baixa. Ele mantinha contato com outras pessoas e havia aprendido a recusar o que não queria com o simbólico "Nã" com menor frequência de arremessar coisas. Aumentou seu repertório de interesse aprendendo a brincar com instrumentos musicais, chutar bola, manusear massinha de modelar, olhar vídeos sem precisar de contato físico.

É necessário ressaltar que nesse processo houve vezes em que ele conseguiu bater a cabeça, no chão ou parede. Também houve instabilidade de humor, irritabilidade, choro, gritos, desestabilidade, oposição, entre outros comportamentos inadequados.

E para encerrar

Eu falei hoje sobre esse caso porque ontem eu recebi um vídeo de Nã andando num parque e sem nenhum contato físico por vários minutos. Em nenhum momento ele tentou de projetar ao chão, não chorou nem apresentou qualquer comportamento inadequado.

São vitórias como essa que me inspiram fazer o que eu faço e viver dentro desse mundo. Eu faço parte de um grupo de pessoas engajadas a fazer as pessoas com dificuldades a viverem melhor.

Abaixo seguem algumas informações adicionais sobre o caso

  • Terapia comportamental de quatro horas por dia e cinco vezes por semana
  • Terapia ocupacional de uma hora por semana
  • Acompanhamento de supervisão com profissionais pós-graduados e mestrados em Análise do Comportamento Aplicada (ABA)
  • Outras especialidades envolvidas: integração sensorial, educação física, música, dança e teatro

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Escrito por

Personal Terapeuta

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