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Ansiedade: um caminho para uma nova vida

<strong>Artigo revisado</strong> pelo

Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

É possível pensar na ansiedade como algo para além de um sentimento fora de lugar e indesejável, dando a si a oportunidade de acolher esta ansiedade e transforma-la dentro de si.

3 Jun 2019 · Leitura: min.
Ansiedade: um caminho para uma nova vida

Por que precisamos falar sobre a ansiedade?

Ansiedade, uma palavra antiga que hoje gera calafrios em muita gente. Há dois anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que, no Brasil, 9,3% da população experimentava sofrimentos devido a um transtorno de ansiedade.

Então, que coisa é esse que nos mobiliza tanto?

A palavra "ansiedade" remonta ao termo grego "Anshein", que remete a um sufocamento ou opressão. Muitos concordarão – e com razão – com este modo inicial de pensar na ansiedade.

A ansiedade é colocada atualmente como um amplo conceito que abarca uma série de manifestações comportamentais denominadas "sintomas".

A ansiedade é: "o coração batendo rápido", "uma dor muito forte no peito", "ficar ofegante sem saber exatamente porque", "gaguejar em uma apresentação", "suar excessivamente", "tremer as mãos", "ficar sem ar", "ficar com tontura", e por aí seguem as descrições mais comuns do que é "estar ansioso".

No mundo contemporâneo, estamos habituados a pensar as emoções e sentimentos desta maneira, como descrições de sensações físicas ou mesmo por pensamentos-padrão que associamos a cada vivência.

E por que deveríamos repensar este movimento?

"Corrigi-lo" seria equivocado, pois as nossas formas de descrever e de compreender intuitivamente o mundo são partes de nossa natureza. Contudo, talvez valha a pena adicionar a isto uma outra ideia, voltando à questão da ansiedade: as nossas emoções, sentimentos, sensações físicas, pensamentos, ou sintomas – como decidirmos nomear – são símbolos que trazem mensagens das profundezas de nosso ser.

Profundezas? Hã?

Não se trata de uma profundidade tão distante e tão enigmática quanto se pode pensar em um primeiro momento. Para esclarecer isso, podemos lembrar, como exemplo, do dizer comum sobre alguém que está passando por situações muito estressantes no trabalho e constantemente adoece por gripe, infecção urinária, gastrite, azia: "o seu corpo está pedindo para parar", "o seu corpo está chamando sua atenção para a sua saúde", etc.

Então, da mesma forma que podemos compreender que a nossa vida corporal atua em nosso benefício, para nos proteger e nos avisar de determinadas situações, podemos entender que a nossa "vida psicológica" nos faz o mesmo. Aquela pessoa do exemplo poderia, ao contrário de ter manifestado através do corpo, ter vivenciado crises de ansiedade, medos intensos, pesadelos frequentes, insônia, compulsão por comida, e a lista vai longe.

Qual é a vantagem de pensar deste modo?

Entender a ansiedade da maneira como pensamos aquelas gripes e azias que surgem quando estamos estressados no trabalho, é conceder a ela a função de comunicar algo que não está bem, de atuar em nosso favor.

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Verena Kast, analista junguiana e autora de diversas obras, afirma que a ansiedade é um elemento inerente à vida psíquica do ser humano e que tem, justamente, a função de nos proteger, já que a ansiedade evidenciaria nossos limites. Portanto, a ausência de ansiedade representa um perigo. Por outro lado, a ansiedade excessiva também traz uma ameaça, pois frente a ela – e quem sofre por isso pode assinar embaixo com convicção – podemos passar a evitar todas as situações que acreditamos que possam desperta-la e, assim, nos paralisar.

Essa evitação, por sua vez, amplia-se mais e mais e, nos casos extremos, podemos nos perceber completamente paralisados diante da vida: deixamos de ir ao trabalho, à escola, à faculdade, paramos de sair com os amigos e de ver familiares.

Neste cenário reside a esperança da mudança e da transformação. Somos capazes de ler na ansiedade a mensagem que ela veio nos passar. Através do processo seguro da psicoterapia, percebemos que somos capazes de fita-la e fazer a passagem por meio da tempestade interna que ela nos impõe. Como coloca Verena Kast:

"A habilidade de tolerar a ansiedade quase que invariavelmente faz que algo maravilhoso aconteça. A ansiedade desaparece e dá lugar a uma vivacidade renovada".

Mas isto é muito difícil de visualizar. Como pode ocorrer?

Temos nos filmes, séries, histórias e contos excelentes exemplos de como a vida e a trajetória individual se dão, como o filme "O Discurso do Rei", de 2010, que retrata a dificuldade de fala de um recém coroado rei. Apenas para simplificar – porém buscando não esgotar a graça do filme com "spoilers" – a gagueira, um sintoma frequentemente muito associado à ansiedade, é tratada durante o filme, cedendo espaço posteriormente a uma nova autoimagem do rei, assim como a uma nova postura diante das outras pessoas. A partir disto, sua vida se transforma.

Existem igualmente comunidades e grupos de pessoas que sofrem e/ou sofreram de ansiedade nos quais é possível visualizar uma série de depoimentos em que o denominador comum é o desfecho de uma nova vida que até mesmo superou a vida anterior à ansiedade.

De que maneira posso realizar este caminho?

Saber que é possível e que você é capaz de fazer este mesmo movimento é o primeiro passo para o seu processo de leitura e transformação da ansiedade. Perceber que você não está bem e pesquisar modos de cuidar de si significa que você já iniciou esta jornada.

Em seguida, o processo de psicoterapia surge como alternativa que promove e catalisa esse percurso. Buscar um/a psicólogo/a com quem você se identifique e se sinta à vontade para falar de si e do seu sofrimento é essencial. A partir do momento em que você o/a encontrar, em breve sentirá o quanto está caminhando e transmutando suas emoções e percepções.

Referências

GRAEFF, Frederico G. Ansiedade. In: GRAEFF, Frederico G.; BRANDÃO, Marcus L. Neurobiologia das doenças mentais. São Paulo: Lemos Editorial, 1997, p. 109-144.

KAST, Verena. A ansiedade e formas de lidar com ela nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2006.

LAUREIRO, Mario E. Saiz. Psicopatologia Psicodinamica Simbolico-Arquetipica: Una perspectiva junguiana de integración en psicopatología y clínica analítica. Montevideo: Prensa Médica Latinoamerica, 2006.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimate.

Psicóloga Amanda Luiza Stroparo

CRP 08/25876

Curitiba/PR

Escrito por

Psicóloga Amanda Luiza Stroparo

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