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Superar a depressão: mediações, emoções e perspectivas de vida

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

É desejável que um processo depressivo seja superado. Entenda como é feito num processo psicoterapêutico em que o(a) profissional de psicologia torna-se uma mediação.

14 Mai 2019 · Leitura: min.
Superar a depressão: mediações, emoções e perspectivas de vida

A depressão é uma psicopatologia e como tal, em seu processo de constituição as relação com o mundo, com o outro, com o tempo e com o próprio corpo são amplamente modificadas, a ponto do sofrimento psíquico fazer-se presente nas mais diversas dimensões da vida, isto é, no trabalho, nas relações familiares, com amigos e amorosas, no lazer e nos estudos.

Em geral, num processo depressivo o mundo perde o sentido, a vivência de estar só ou querer estar só torna-se predominante, o futuro não parece viável e falta energia para dar conta dos afazeres. Além de tudo, a relação consigo é marcada pela falta de reconhecimento de si, expressa por racionalizações como "não sou mais como era antes" ou ainda "gostaria de voltar a ser como era antes".

A depressão reúne, tanto quanto outras psicopatologias como a ansiedade por exemplo, um conjunto de fenômenos psicológicos inerentes a certas experiências que as pessoas vivem sempre em situação. Quais fenômenos psicológicos? Citamos três dimensões de tais fenômenos que perpassam umas as outras, são elas: as emoções, a perspectiva de futuro e a mediação dos outros. A distinção destas dimensões, que farão parte da narrativa dos(as) clientes que contam suas histórias, deverão ser descritas nas sessões psicoterápicas, viabilizando assim, a compreensão, em primeiro lugar do(a) psicoterapeuta, para mediar o(a) cliente na localização diante de sua situação.

Neste ponto precisamos esclarecer algo importante. A noção usual de doença mental não é compatível com entendimento da depressão como sofrimento psíquico. Pois o sofrimento psíquico é constituído por complicações inerentes a história singular em certo contexto histórico e social, diferente da concepção de doença ou transtorno que titubeia entre a determinação biológica e determinações multifatoriais ou biopsicossociais.

Aprofundar os esclarecimentos necessários seria papel de outro texto, afinal escrevemos aqui para simplificar a ciência psicológica, principalmente, na sua aplicabilidade, no nosso caso, a psicoterapia. Por isso compete-nos afirmar apenas que toda concepção teórica carrega consigo as propriedades técnicas e seus resultados. A nós, cabe apresentar os nossos recursos teóricos e técnicos, que no campo ético prima pela felicidade compartilhada. Assim, a pergunta que fazemos é: qual a condição de possibilidade para que o sofrimento psíquico ocorra, especificamente a depressão? Notemos que não mencionamos aqui fatores causadores da depressão, em vez disso, pretendemos mostrar do que se trata a condição de possibilidades.

Inicialmente, o campo de possibilidades para o sofrimento psíquico necessita ser compreendido pelo(a) cliente para que saiba que nem tudo depende exclusivamente de seu empenho pois o campo de possibilidades sociais e históricos são inerentes as possibilidades individuais, como por exemplo àquelas referentes a classe social, e atualmente em evidência, gênero e raça. Neste sentido, a biografia de cada um de nós se estrutura sob mediações que obtemos, a princípio, em nosso lugar, ou seja, nosso gênero, nossa raça, nossa classe.

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Vale marcar, entretanto, que muito embora a felicidade seja possível, as condições sociais e históricas (classe social, gênero e raça) podem dificultá-la ou até inviabilizá-la grandemente: se estamos numa guerra e cercados(as) pela violência; se estamos suscetíveis a ser objeto de violência (preconceito, indiferença ou desprezo); se trabalhamos até adoecer, se acidentar ou morrer; se nossa sociedade nos deixa inseguros quanto a nossas perspectivas de nos realizamos nos estudos, no trabalho ou amorosamente...

Tudo isso cria um clima propício para vivenciarmos o sofrimento psíquico. Não é por acaso que os dados da Organização Mundial da Saúde revelam um grande número de pessoas em depressão em todo o mundo moderno e que há, igualmente, certa projeção de que aumentará ainda mais. Atesta-se, inclusive, a combinação entre a depressão e a ansiedade.

O processo psicoterapêutico é dialético e está a mercê de contradições peculiares ao nosso lugar e a nossa existência. Enquanto as elaborações ocorrem no espaço psicoterapêutico a vida segue, o contexto social tem certas configurações já dadas que podem ser permeadas por conflitos de ordem família, das amizades, do trabalho etc. Neste sentido, além da materialidade necessária a existência e a felicidade, as relações com o outro precisam ser alimentadas.

A narrativa que o(a) cliente desenvolve no espaço psicoterapêutico é fundamental, mas também é desejável que assim o faça na vida. A escuta e o dizer do(a) psicoterapeuta são qualificados. Mas, este espaço não prescinde do contar histórias, da narrativa sobre a experiência, da reflexão compartilhada na vida intima das relações de cada um, no trabalho, na família etc.

No fim das contas, podemos afirmar que é imprescindível sair da solidão para que o sofrimento psíquico seja superado. Para superação de um processo depressivo é vital retomar ou construir as mediações com o outro mas, especialmente, o poder de agir. Para tanto, faz-se necessário situar a experiência de depressão na nossa época, em que o individualismo, a solidão e a ilusão se sobressaem.

Desenvolvemos a descrição das dimensões da existência, das experiências afetivas e emocionais com os outros e das perspectivas de futuro situando-as no contexto e também na temporalidade, pois há um antes e um depois do inicio do processo depressivo a ser localizado e que ao ser compreendido pelo(a) cliente objetivando viabilizar o poder agir diante da sua condição, que, por ventura, pode ter certos limites.

Entretanto, novas ações com experiências realizadoras poderão oferecer ao(a) cliente condições para transcender o processo depressivo, experimentando-se com amigos, sendo amado(a), organizando seu passado e fruindo de seu futuro e vivendo o presente. Do mesmo modo que há um antes e um depois do processo depressivo, há um antes e um depois do processo psicoterapêutico. Ser feliz não é somente digno de um momento particular, uma viagem, uma festa, uma compra, mas principalmente usufruir do próprio cotidiano.

Às vezes, uma situação especial deve exigir mais de nós mesmos do que usualmente, uma conversa com um(a) filho, esposo(a) etc. em que um posicionamento sobre valores, comportamentos se faz importante. Também um posicionamento diante de um campo de possíveis em que escolhas terão um peso definitivo, como escolher uma profissão, ser pai ou mãe, mudar-se de cidade ou país etc. Mas, em geral, o poder de agir é exercitado todos os dias, possibilitando experimenta-nos seguros para lidar com o cotidiano como agradável, como realizador, mas também com seus impasses, como é próprio da materialidade ou da realidade.

A psicologia existencialista oferece os recursos teóricos e técnicos científicos para a superação de um processo depressivo. Inicialmente, importa entender que a depressão e uma forma de sofrimento psíquico constituído em certo cenário social e histórico. Em segundo lugar, no que diz respeito a singularidade do(a) cliente, faz-se importante que se localize diante deste cenário que favorece a depressão, ao mesmo tempo que o campo de seus possíveis que viabiliza novas mediações. O esclarecimento diante da sua situação vai ocorrendo ao longo das sessões de psicoterapia em que a narração e a descrição tem função, além de diversas técnicas que auxiliam nas localizações que potencializam o poder de agir no mundo, junto com os outros, construindo relações de confiança e afeto.

Fotos: MundoPsicologos.com

Escrito por

Andréa Luiza da Silveira

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