É possivel nascer sem coração?

Feita por >Mah · 19 jan 2026 Autoestima

Acho que tem algo incomum em mim, e gostaria de colocar tudo para fora hoje. Tenho poucas memórias da minha infância e algumas delas não sei se são verdade. Tem uma que não consigo distinguir, envolvendo uma antiga vizinha. Ela era bem jovem, 12 anos talvez, e eu tinha 5–7, não sei dizer.
Na minha cabeça, ela me mostrou muita coisa que uma criança não costuma ver, me apresentou ao mundo e fazia certas coisas comigo que apenas adultos faziam. E quando penso nisso, não sinto nada, apenas vazio. Se for real, eu não deveria odiar ela?
Após a separação dos meus pais, eu me mudei para longe da vizinha e comecei a ficar apenas com minha mãe. A gente morava perto das minhas tias.
Me recordo da minha mãe em um momento delicado da vida dela. Ela estava sempre com muita raiva e saía muito, fazendo com que eu e meu irmão sempre ficássemos na casa de nossas tias, que são super religiosas e um pouco restritas com carinho. Lembro que eu costumava achar o Natal especial, pois era quando eu recebia abraços…
Eu não tinha atenção, então me isolei. Sempre fui muito bruta com meu irmão, mesmo ele sempre estando por perto. Minhas tias são o tipo de pessoa que vão à igreja diariamente e, logicamente, eu tinha que ir junto, mesmo não gostando, já que minha mãe dificilmente estava em casa.
Quando eu ia para a casa da minha mãe, me lembro que era uma total bagunça: lixo no chão, comida vencida, muita sujeira, e mesmo assim me sentia melhor do que nas minhas tias.
Enquanto fui crescendo, percebi que tinha algo de diferente em mim. Não importava a conversa que eu estivesse tentando ter com alguém, eu sempre me sentia muito desconfortável. Ainda sinto essa “aura”, como se tivesse algo errado, e fui encontrando isso em outras coisas.
Na escola eu tinha poucos amigos. Sempre senti algum tipo de vazio, como se estivesse faltando algo. Eu tenho consciência de que era estranha, não sei o motivo de fazer certas coisas, mas entendo que ninguém queria se aproximar. Meus pensamentos eram muito maldosos, violentos, não sei de onde saiu toda essa raiva que tenho.
Quando eu recebia sermões, eu simplesmente não entendia os sentimentos. Não sei explicar, mas um exemplo é quando você assiste a um filme e compreende a moral. Sabe? Eu nunca tive isso. É como se as palavras entrassem na minha cabeça, eu entendesse, mas não fosse capaz de captar os sentimentos.
Sou terrível de explicar.
Enfim, após a escola tentei faculdade e me senti igual. Acabei desistindo. Eu digo para as pessoas que foi o curso, que eu não gostei da área, mas sei muito bem que não importa o que eu faça, não vou me sentir pertencente a nenhuma área. Cheguei à conclusão de que eu poderia ter nascido qualquer coisa e esse sentimento ainda seria o mesmo.
Agora estou começando a estudar para entrar em uma nova faculdade, mas sinceramente não vejo o motivo de continuar. Eu não queria morrer, só não quero existir

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A melhor resposta 22 JAN 2026

Mah, ninguém nasce sem coração. O que pode acontecer é o coração aprender a dissociar para sobreviver.

Pelo que você descreve, houve falta de cuidado emocional, ambientes instáveis e possivelmente uma vivência sexual inadequada (e traumática) na infância. Quando uma criança passa por situações assim, o psiquismo encontra uma saída: anestesia emocional. O vazio, a dificuldade de sentir, a raiva sem nome, a sensação de não pertencimento, tudo isso não indica frieza ou ausência de caráter, mas mecanismos de defesa muito antigos e automáticos.

Sobre não sentir ódio ou nada ao lembrar: isso é comum em experiências traumáticas precoces. O corpo “desliga” o afeto para não entrar em colapso. Não sentir não significa que não foi grave; muitas vezes significa que foi demais para a criança que você era.

A sensação de “algo errado comigo”, de não captar emoções como os outros, de existir sem realmente viver, costuma aparecer quando não houve espaço seguro para sentir. Você aprendeu a observar o mundo de fora, não a habitá-lo. Isso é doloroso e tratável.

Quando você diz “não quero morrer, só não quero existir”, isso é um sinal importante de sofrimento. Não é um desejo de morte, é um pedido de alívio. E você merece esse alívio com ajuda, não sozinha.

O que você viveu precisa ser cuidado em terapia por um especialista. Você não nasceu sem coração, seu coração aprendeu a se proteger cedo demais.
Com o cuidado certo, ele pode, aos poucos, voltar a sentir. Fico a disposição para te atender, sou especialista em traumas emocionais e violências contra a mulher. Visite meu site e conheça melhor o meu trabalho.
Um abraço

Cristiane Melo Psicólogo em Campinas

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12 MAR 2026

Mah, lendo seu relato da pra perceber que você carrega uma sensação de vazio e de não pertencimento já faz muito tempo, quase como se tivesse crescido tentando entender algo dentro de você que nunca parecia se encaixar no mundo ao redor. E a primeira coisa importante de dizer é que não, ninguém nasce “sem coração”. O que você descreve muitas vezes aparece em pessoas que passaram por experiências emocionais muito difíceis na infância, especialmente quando existiu abandono emocional, falta de afeto, ambiente instável ou até situações que podem ter sido traumáticas, como essa memória confusa com a vizinha. Quando uma criança cresce em um ambiente onde não recebe segurança, atenção e cuidado emocional de forma consistente, o cérebro aprende a se proteger de uma maneira muito específica, ele começa a desligar ou bloquear certas emoções para conseguir sobreviver àquele contexto. Por isso algumas pessoas relatam exatamente essa sensação de vazio, de entender racionalmente as coisas mas não conseguir sentir da mesma forma que os outros parecem sentir. Não significa que você não tenha sentimentos, muitas vezes significa que eles foram reprimidos ou ficaram desconectados ao longo do desenvolvimento. O fato de você lembrar que abraços no Natal eram algo raro já diz muito sobre a carência emocional que existia naquele ambiente, e quando uma criança cresce sem esse tipo de vínculo seguro, ela muitas vezes aprende a se isolar e a desenvolver uma visão mais dura do mundo e das pessoas. Também é importante olhar para essa memória com a vizinha com muito cuidado, porque se realmente existiu algum tipo de exposição sexual quando você era criança, isso pode ter sido uma forma de abuso, mesmo que na época você não tivesse compreensão do que estava acontecendo. Muitas pessoas que passaram por situações assim relatam exatamente essa dificuldade de sentir algo sobre o ocorrido, não porque não foi importante, mas porque o cérebro às vezes cria um distanciamento emocional como forma de proteção. Outra coisa que aparece muito forte no seu relato é a sensação constante de não pertencer, como se qualquer caminho que você escolha não faça muito sentido. Esse sentimento não significa que sua vida não tem valor ou direção, muitas vezes ele aparece quando a pessoa passou muitos anos tentando sobreviver emocionalmente em vez de aprender a se conhecer e se conectar com o mundo de forma segura. O fato de você dizer que não quer morrer, mas também não vê sentido em existir, mostra um nível de cansaço emocional muito grande, como se viver estivesse sendo apenas suportar o tempo passando. Isso é algo que merece ser cuidado com muita seriedade e apoio. Conversar com um profissional pode ajudar muito a reorganizar essas experiências da infância, entender melhor esse vazio e começar a reconstruir uma relação mais segura consigo mesma e com o mundo. No meu trabalho com Terapia Cognitivo Comportamental eu costumo ajudar a pessoa a identificar esses padrões de pensamento e emoção que foram se formando ao longo da vida, muitas vezes a mente cria crenças profundas como “eu sou diferente”, “tem algo errado comigo” ou “eu não pertenço a lugar nenhum”, e essas crenças passam a influenciar a forma como a pessoa vê todas as experiências da vida. Na TCC a gente trabalha justamente revisando essas crenças, entendendo de onde elas vieram e desenvolvendo novas formas de interpretar a própria história e as próprias emoções, ajudando a pessoa a reconstruir um senso de identidade, pertencimento e sentido ao longo do tempo.

Jairo Baptista do Nascimento Junior Psicólogo em Vitória

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20 JAN 2026

Olá!
Eu sinto muito que tudo isso tenha acontecido e que você esteja se sentindo dessa maneira, de verdade. Entendo que não é justo que uma criança tenha experimentado o que você viveu e justamente por isso é natural que, quando crescemos em um contexto inóspito emocionalmente, tendemos a nos fechar aos afetos, como se eles fossem "bloqueados". Talvez isso explique essa sensação de que "nasci sem coração".
Também não há como saber com certeza quem nos seriamos em outras realidades caso os eventos que vivemos não tivessem acontecido, é injusto consigo mesmo pensar que você seria a mesma pessoa em qualquer circunstâncias.
O que eu desejo pra ti é um mundo onde você consiga encontrar qualquer espaço que não represente agressão ou anestesia afetiva. É claro que a terapia é um desses espaços, mas não é o único. Nela você pode dar uma chance de reaprender a construir uma relação, tendo seu ponto de vista valorizado e validado, sem julgamentos, da forma mais segura possível. Aqui, essa sensibilidade pode ser resgatada e usada como motor para encontrar as mudanças que talvez você queira pra si.
Espero ter ajudado, se cuide!
Boa sorte no seu caminho
Um abraço

Eloisa Goronci Psicólogo em Vila Velha

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20 JAN 2026

Mah
Teu relato é profundo e delicado — e não indica ausência de “coração”, mas sim história de feridas precoces graves.

Não! Não é possível nascer sem coração?
Do ponto de vista biológico, psicológico e neuroemocional, ninguém nasce sem capacidade afetiva.
O que existe, e é exatamente o que aparece no relato, é:
> desenvolvimento emocional interrompido, anestesiado ou fragmentado por trauma precoce.
Isso não é falta de humanidade. É proteção psíquica.

O que aparece claramente na tua história Mah
1. Possível abuso sexual infantil precoce. Você descreve:
* Idade muito precoce (5–7 anos)
* Outra criança mais velha (≈12)
* Conteúdos e atos sexualizados
* Memória fragmentada
* Ausência de emoção ao lembrar
Isso é clássico de trauma dissociativo.
Quando o cérebro infantil é exposto a algo que não consegue simbolizar, ele não sente ódio, medo ou tristeza — ele desliga.
Não sentir nada não invalida o abuso. É exatamente o que o trauma faz.

2. Privação afetiva crônica.
Elementos muito claros:
* Separação parental
* Mãe emocionalmente ausente, desorganizada, possivelmente deprimida
* Ambiente negligente (sujeira, comida vencida)
* Substituição do cuidado por tias rígidas, religiosas, pouco afetivas
* Afeto raro e condicionado (abraços só no Natal)

Isso constrói uma criança que aprende: “Sentir não adianta. Pedir não adianta. Se eu precisar, não vem.”
O vazio nasce aqui.

3. Dissociação emocional (não psicopatia)
Você descreve:
* Compreensão cognitiva sem acesso ao sentimento
* Dificuldade de captar “moral emocional”
* Pensamentos agressivos intrusivos
* Sensação de ser “estranha”, deslocada
* Vazio persistente
* “Aura de algo errado”

Isso não é psicopatia... Psicopatas não sofrem com isso.
Isso é:
* Dissociação
* Embotamento afetivo
* Trauma relacional precoce
* Falha na integração emoção–linguagem

A frase mais importante do relato: “Eu não queria morrer, só não quero existir.”
Isso é um marcador clínico sério, mas ainda não suicida.
Você está dizendo:
* “Existir dói”
* “Não vejo sentido”
* “Não pertenço”
* “Nada me toca”
Isso é exaustão existencial traumática, não desejo de morte.

O norte que você precisa:
Primeiro eixo: tirar o peso da culpa e do “defeito”. Você não nasceu errada.
Você se adaptou a um mundo que falhou com você.”
O vazio não é essência. É consequência.

Segundo eixo: pare de buscar sentido “intelectual”.
Faculdade, carreira, área — tudo isso não resolve vazio traumático.
Enquanto você tenta:
* “me encaixar”
* “pertencer”
* “fazer algo que faça sentido”
Sem antes sentir segurança emocional, o vazio permanece.

O problema não é o curso.
É o sistema nervoso em estado de defesa há décadas.

Terceiro eixo: reconstrução do sentir (não do pensar)
Você não precisa entender mais.
Você precisa aprender a sentir em doses seguras.

Isso passa por:
* Psicoterapia com foco em trauma (não só conversa)
* Trabalho corporal (grounding, percepção somática)
* Ritmo lento
* Vínculo terapêutico estável
* Nomeação progressiva de estados internos

Sentimentos não aparecem sob cobrança.
Eles emergem quando há segurança.

Você não está vazia.
Você ficou cheia demais cedo demais de coisas, de exemplos, de sofrimentos dos outros e te fizeram acreditar que a vida seria isso e precisou se anestesiar para sobreviver.
Agora, o trabalho não é ‘virar alguém’, é voltar a sentir com segurança, conhecer-se, eliminar o que está travando a sua vida, o seu desenvolvimento e a sua felicidade.
Não é que você “não quer existir” ... você não quer mais existir dessa forma, não quer mais sofrer. Essa não é a vida que você quer viver.

Precisa reconstruir a consciência sentida, não apenas pensada
Faça Psicoterapia - isso tem solução.
Abraços

Geime Rozanski Psicólogo em Brasília

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20 JAN 2026

Obrigada por confiar em colocar isso em palavras. O que você descreve não soa como algo “incomum” no sentido de estranho ou errado em você, mas como marcas profundas de experiências muito precoces, confusas e solitárias, vividas sem o amparo emocional necessário.
Quando a infância é atravessada por situações que uma criança não tem recursos psíquicos para compreender ou elaborar, como possíveis vivências de sexualização precoce, ausência de cuidado consistente, instabilidade familiar e falta de afeto, o psiquismo encontra formas de sobreviver. O vazio que você relata, a dificuldade de sentir, a sensação de não pertencer, a raiva sem origem clara, a impressão de que entende as coisas apenas de forma intelectual e não afetiva, tudo isso pode ser compreendido como modos de adaptação, não como falhas suas.
Sobre a memória da vizinha, é importante dizer que o fato de você não sentir ódio ou qualquer emoção clara não invalida o impacto do que pode ter acontecido. Muitas vezes, diante do excesso, o afeto não aparece como indignação ou dor, mas como anestesia. O vazio também é um afeto. Não existe um sentimento “correto” que você deveria ter. Cada sujeito responde como pode.
A alternância entre uma casa caótica, mas afetivamente mais livre, e outra organizada, porém rígida e pouco acolhedora, somada à ausência emocional de figuras de referência, pode produzir exatamente essa sensação de estar fora de lugar no mundo. A criança aprende cedo que não há onde se apoiar, e o isolamento vira proteção. A agressividade, os pensamentos violentos, a dificuldade de empatia ou de captar a moral das situações não significam maldade essencial, mas defesas construídas quando não houve espaço seguro para sentir.
Quando você diz que não quer morrer, mas não quer existir, isso fala menos de um desejo de fim e mais de um cansaço profundo de sustentar uma existência vivida sem sentido, sem pertencimento e sem laço. Isso merece cuidado, escuta e acompanhamento.
Nada do que você descreve se resolve pela força de vontade, por escolher o curso certo ou por “se ajustar” mais ao mundo. O que está em jogo é a possibilidade de construir, aos poucos, um lugar interno onde você possa existir com mais presença, menos vazio e menos culpa por ser quem é.
Por isso, sim, a terapia é fortemente indicada. Um processo terapêutico pode oferecer algo que faltou lá atrás: um espaço contínuo, seguro e não invasivo, onde suas experiências possam ser nomeadas no seu tempo, sem pressa, sem julgamento e sem a exigência de sentir algo específico. Não para apagar o passado, mas para permitir que ele seja elaborado, simbolizado e integrado de outra forma.
Você não está quebrada. Você está marcada. E marcas podem ser cuidadas. Procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de um desejo, mesmo que ainda muito tímido, de não continuar sozinha com tudo isso. Se for possível, busque um psicólogo ou psicóloga com quem você se sinta minimamente à vontade. O vínculo é mais importante do que qualquer técnica.
Você não precisa decidir agora qual faculdade fazer nem qual sentido a vida deve ter. Talvez o primeiro passo seja simplesmente encontrar um lugar onde existir não doa tanto. Entre em contato comigo, ass: Amanda, Psicóloga.

Anônimo-472242 Psicólogo em Belo Horizonte

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20 JAN 2026

Mahria, o que você descreve é mais comum do que parece, embora quase ninguém fale sobre isso. E não, isso não significa que há “algo incomum” ou errado em você.

Vou responder com muito cuidado, porque esse tema exige segurança emocional.



Aline Cristina Félix Domene Psicólogo em Fortaleza

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20 JAN 2026

Olá, Mah! Não, não é possível nascer sem coração no sentido emocional. O que é possível, e infelizmente muito comum, é crescer sem ter tido um ambiente que ajudasse esse coração a se organizar, se proteger e aprender a sentir com segurança. O vazio que você descreve não é ausência de humanidade, é um sinal clássico de alguém que precisou se desligar emocionalmente muito cedo para conseguir sobreviver.

Quando uma criança vive situações confusas, invasivas ou possivelmente sexualizadas antes de ter maturidade para compreender, o cérebro infantil muitas vezes responde com dissociação. Dissociar significa “desligar” partes da experiência emocional para suportar o que é demais. Por isso, hoje, ao lembrar dessa vizinha, você não sente ódio, nem tristeza, nem raiva, apenas vazio. Isso não indica frieza ou falta de empatia, indica um mecanismo de defesa antigo que foi necessário naquele momento. Sentir “nada” pode ter sido a única forma de continuar existindo sem se despedaçar. O fato de você não saber se a memória é real ou não também é muito significativo. Memórias fragmentadas, confusas ou duvidosas são extremamente comuns em contextos de negligência emocional, instabilidade familiar e possíveis experiências traumáticas precoces. O cérebro infantil não registra essas vivências como uma história clara, mas como sensações soltas, imagens, climas. A dúvida não invalida o impacto. Algo ali foi demais para você, independentemente da forma exata como aconteceu.

Depois disso, você descreve uma infância marcada por ausência emocional. Uma mãe sobrecarregada, irritada, pouco disponível, tias rígidas, religiosas, com pouco espaço para afeto físico, regras sem acolhimento. Uma criança que só recebia abraços no Natal aprende, muito cedo, que o contato emocional é raro, condicionado e imprevisível. Isso molda profundamente a forma como alguém se relaciona consigo e com os outros.

O isolamento que você desenvolveu não foi escolha, foi adaptação. A brutalidade com seu irmão, a dificuldade de entender sentimentos, a raiva sem nome, os pensamentos violentos não surgem do nada. Eles costumam nascer quando a criança não tem espaço seguro para expressar medo, tristeza ou confusão. A emoção que não pode ser sentida vira tensão, agressividade ou vazio. Nada disso significa que você seja má; significa que você não teve quem te ajudasse a aprender a sentir.

Quando você fala que entende as palavras, mas não capta os sentimentos, isso descreve muito bem um funcionamento dissociado. É como assistir à vida por trás de um vidro. Você compreende racionalmente, mas não acessa a experiência emocional plena. Isso acontece com pessoas que cresceram precisando se proteger do excesso, da imprevisibilidade ou da dor. Não é defeito, é consequência. A sensação constante de “aura errada”, de não pertencimento, de estranhamento em qualquer ambiente, inclusive na faculdade ou em projetos de vida, reforça essa hipótese. Quando alguém cresce sem sentir que pertenceu a um lugar emocionalmente seguro, o mundo inteiro passa a parecer estranho. Não é a área, não é o curso, não é você ter “nascido errado”. É um vazio de base, uma sensação de não ter chão interno.

Quando você diz que não importa o que faça, o sentimento será o mesmo, isso soa como desesperança, não como verdade absoluta. É muito comum que pessoas com histórico de negligência emocional e dissociação sintam que nada vai preencher o vazio, porque nada externo resolve o que foi faltando por dentro. Mas isso não significa que não haja possibilidade de mudança; significa que o caminho precisa ser outro, mais cuidadoso, mais profundo, mais acompanhado.

Quero prestar muita atenção na frase “eu não queria morrer, só não quero existir”. Isso é um sinal importante de sofrimento psíquico intenso. Não é desejo de morte, mas é desejo de cessar a experiência de estar vivo dessa forma. Isso merece cuidado, escuta e ajuda profissional. Você não precisa lidar com isso sozinha, e não precisa provar que está “mal o suficiente” para merecer ajuda.

Nada no seu relato aponta para alguém sem coração. Pelo contrário, aponta para alguém que teve que anestesiar o próprio coração cedo demais. Emoções não desapareceram; elas ficaram inacessíveis, protegidas, encapsuladas. E isso pode ser trabalhado com acompanhamento psicológico, especialmente em abordagens que lidam com trauma, dissociação e desenvolvimento emocional. Você não é defeituosa, quebrada ou irrecuperável. Você é alguém que aprendeu a sobreviver em ambientes que não ensinaram a sentir com segurança. O vazio não é quem você é; é o espaço onde deveria ter havido cuidado, presença e afeto.

Talvez agora, mais do que buscar um motivo para continuar existindo, o primeiro passo seja permitir que alguém caminhe com você nesse processo, sem te apressar, sem te julgar, sem exigir que você sinta o que ainda não consegue sentir. A vida não precisa fazer sentido agora para que ela mereça ser cuidada. Um profissional pode caminhar com voce e te ajudar nesse processo. Se em algum momento esse desejo de não existir se transformar em vontade de se machucar ou desaparecer, por favor procure ajuda imediata, seja em um consultório particular ou no SUS. No Brasil, o CVV atende pelo número 188, 24 horas por dia. Voce também procurar o serviço do CAPS, UPA ou pronto-socorro do hospital mais próximo. Lembre: pocurar ajuda não é dramatizar, é se responsabilizar pela própria vida.

Você não nasceu sem coração. O que aconteceu é que ele precisou se proteger por muito tempo. E corações protegidos também podem, com cuidado e tempo, voltar a sentir.

Natália Maria Clapis Pereira Psicólogo em Presidente Prudente

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20 JAN 2026

Bom dia, Mah! Grato por se colocar. Que bom que você escreveu! Certamente as situações desconfortáveis, inadequadas foram c se repetindo de tal forma que você começou, para certo conforto de entendimento, generalizando desdobramentos negativos. Certamente nos seus cinco a dez anos, aproximadamente, você vivia esperanças, fantasias positivas. Elas podem ser resgatadas.
A vida é uma construção, não precisamos antecipar o futuro com otimismo, mas também não podemos ter certeza de que ele será negativo. Dependerá fortemente da forma como nós, vamos cultivando, plantando.
Vamos trabalhar para que você cultive diferente, plante diferente. Será preciso abertura mental, persistência, discernimento e sabedoria.
Que bom que você está estudando novamente. Estudar é para sempre. Motivos para continuar, olhando atentamente, são intermináveis. Cada descoberta, cada aprendizado, cada resolução de problema, cada caminhar será algo enriquecedor.
Por analogia, a busca de responder a cada uma das mais de dez mil perguntas respondidas, são parte dessa dezena de milhares de motivos para a vida. Você também pode ter dez mil motivos ou mais para construir respostas e as devidas gratificações.
Atenciosamente,
Ary Donizete Machado - psicólogo clínico e orientador ocupacional.

Ary Donizete Machado Psicólogo em Limeira

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20 JAN 2026

Ola, sou psicólogo Michael, vc traz em sua postagem muitas questões que necessitam ser trabalhadas e desenvolvidas em terapia.
Asédio, separação dos pais, uma adolescência difícil afastado da família nuclear, dificuldades de relacionamento entre outras questões.
Muitos adultos cresceram sem entender e compreender os sentimentos relacionados a adolescência, isso se da por familiares que utilizam do pseudo poder adulto para calar e coibir as crianças, desta forma, oriento você iniciar o acompanhamento psicológico o quanto antes e pode contar comigo para te ajudar.

Michael Kennedy Silva Franca de Souza Psicólogo em Iguaba Grande

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