Acho que desperdicei minha vida

Feita por >Mara em 29 Jun 2019 Depressão

Olá! Sou uma mulher de 36 anos e, por mais ridículo que possa parecer, nunca namorei. Isso mesmo, sou virgem à essa altura do campeonato. Nessa fase da vida em que deveria já estar com a vida pessoal e profissional já estabilizadas sinto que sequer comecei a viver. E temo que já esteja tarde para realizar alguns sonhos, como o de ser mãe por exemplo. Bem, vou dar um resumo de como cheguei até aqui:
Cresci em uma família disfuncional. Nada tão grave comparado a muitas famílias que vemos por aí, mas também não necessariamente saudável. Meu pai, apesar de presente, sempre foi uma pessoa difícil. Machista, autoritário e grosseiro com minha mãe. Minha mãe, por sua vez, era uma pessoa muito doce e amorosa, uma mãe maravilhosa. Mas por sofrer de muitas dores emocionais, às vezes se tornava uma pessoa melancólica. Na fase da separação deles eu e meu irmão suportamos o peso da falta de maturidade emocional deles e ficamos no meio do "fogo cruzado".
De em lado, meu pai que quando vinha nos visitar sequer entrava em casa pra não falar com minha mãe e quando tinha que falar algo com ela já entrava com sete pedras na mão. Nos levava pra sair e passava horas (isso mesmo, horas) falando mal da minha mãe de forma muito pesada pra duas crianças ouvirem, me "orientava" sobre o que é o bicho homem (colocações machistas sobre a vida do homem e da mulher) e fazia críticas. Não me entenda mal, eu sei que falando assim pode parecer que meu pai é uma pessoa horrível, mas não é isso que quero dizer. Ele tem também qualidades. Fez e ainda faz muita coisa boa por nós. Mas por ter uma certa toxidade em si, talvez algum trauma de criação ou distúrbio, pois também teve uma vida difícil, ele acabou nos passando essa toxicidade junto com seu amor. Penso que ele fez o melhor que pôde nas condições psicológicas que tem.
Do outro lado havia minha mãe que, apesar de não ser feliz no casamento, sofreu muito quando ele se desfez. Depois que meu pai apresentou sua nova companheira, aí que ela ficou mal mesmo. Se sentia traída e menosprezada por ele te-la "trocado" por outra depois de toda dificuldade que suportou ao lado dele. Quando ele nos levava pra sair e mulher dele ia junto, já sabíamos que quando voltássemos pra casa iam ser mais horas ouvindo sobre coisas pesadas. Ela meio que se abandonou e passou a viver em função dos filhos, tornando-se assim uma mãe super protetora. E apesar de saber que ela era assim por nos amar mais do que tudo e com a intenção de nos proteger, essa super proteção acabou prejudicando. Fiquei uma menina débil, que não sabia fazer nada sozinha, nem ir a lugar nenhum sozinha e tinha medo de tudo. Após um tempo ela se resignou e, mesmo ainda um tanto estranhos um com o outro, a situação se "estabilizou". Por conta do seu auto-abandono, inclusive com a própria saúde, a diabetes dela evoluiu, levando-a a uma cadeira de hemodiálise por insuficiência renal e há 8 anos atrás ela faleceu.
Mas voltando a falar de mim, sempre tive problemas de autoestima. Me achava feia por não me encaixar nos padrões com meu cabelo crespo e pele escura e conforme fui crescendo, me sentia deslocada e por isso acabei me tornando uma pessoa tímida e insegura. Então, para fugir da realidade em que eu não conseguia me sentir encaixada, me refugiava em meu mundo de fantasias, onde eu me sentia segura e podia ser quem eu quisesse. Tinha ali minha válvula de escape da realidade feia em que vivia (nasci em uma favela). Enquanto na vida real estava cercada de feiura, violência, sujeira, vulgaridade e falta de respeito, no "meu mundo" podia viver uma vida bela e feliz. Os anos foram passando sem que eu percebesse e quando dei por mim, tinha ficado pra trás. Não fiz faculdade, não namorei, não me casei, não tive filhos... não construí nada na vida. Simplesmente fui vivendo um dia depois do outro, trabalhando pra sobreviver, e me isolando cada vez mais dentro de mim mesma, achando que quando eu bem quisesse, mudaria. Mas não era bem assim. Descobri recentemente que desenvolvi um vício ainda pouco conhecido chamado maladaptive daydream (ou devaneios excessivos, como é chamado em português). O "soco no estômago" veio nos últimos 2 meses, quando percebi falhas no meu ciclo menstrual, o que significa que estou deixando a fase fértil de minha vida. Estou vendo o sonho de ter uma família desmoronar e meus familiares e pessoas de meu círculo social (que é muito restrito) não ajudam, caçoando de mim por ser uma solteirona encalhada (já voltei de reuniões familiares aos prantos por ser a chacota da festa) e sem filhos, dizendo que vou acabar envelhecendo sozinha sem ter quem cuide de mim quando as dificuldades da velhice chegarem. Apesar de tentar não viver em ansiedade por isso, confesso que de certa forma isso tem me abalado e preocupado, principalmente agora que me dei conta que minha possibilidade de ser mãe está cada vez mais escassa devido à infertilidade imposta com o passar dos anos. Sei que não devo ficar me lamuriando pelo passado e sim arregaçar as mangas pra mudar, mas me sinto tão sem forças e sozinha. Me sinto muito fraca emocionalmente e tudo que começo, desisto. Eu sei que pode parecer dramatização, mas é como se eu tivesse uma nuvem negra sobre mim (que na verdade está dentro de mim) que faz com que eu não tenha alegria naquilo que faço. Tudo que me proponho a fazer (seja estudar, me dedicar a algum tipo de espiritualidade ou me exercitar) é sempre "me arrastando" pra tentar mudar e não porque realmente "quero" fazer ou sinta naquilo algum tipo de alegria. E ao fazer as coisas na mecanicidade, apenas por fazer, não temos constância. Afinal, como dizia Platão: "o corpo é a carruagem, a razão a condutora e as emoções os cavalos". Se os cavalos estão fracos, a carruagem não tem força pra se mover. Por muito tempo rejeitei a ideia de sofrer de depressão, pois achava que a depressão era algo muito mais pesado, onde as pessoas chegam a se suicidar. Achava que eu era simplesmente fraca. Mas hoje cogito a hipótese de tê-la em algum grau e talvez seja esse o motivo da minha fraqueza.

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Olá
Pensar que desperdiçou sua vida é um simples pensamento, que pode não corresponder à realidade. Você tem muita vida pela frente e parece estar muito ciente do seu processo..
Pode ser sim, como você colocou a hipótese, que haja depressão, mas pode ter outros problemas também, emoções e pensamentos que estão arraigados e estão levando à depressao. Um tratamento psicológico poderá te fazer bem, ajudá-la na reperspectivação da sua vida e traçar uma nova vida.

Se precisar, estou à disposição. Abraço
Roberta Bouchardet

Roberta Bouchardet Psicóloga Psicólogo em Foz do Iguaçu

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Boa noite, você não desperdiçou a sua vida, pois cada ser humano tem seu momento e, tudo que você viveu durante esses anos foram experiências que podem te fortalecer para que você faça tudo diferente de agora em diante.

Aos 36 anos você pode realizar muitas coisas, ter um companheiro, mudar a aparência, não esquecendo que cada pessoas tem sua beleza, se quer ter filhos a ciência tem recursos e se não tiver recursos financeiros, procure o sistema de saúde gratuito logo para avaliar as condições atuais e recorrer as medidas possíveis. Já pensou se não puder ter filhos ainda pode adotar uma criança, seria uma opção para você?

Tamara, mas antes de pensar em ter filhos não seria mais urgente cuidar de você para que esteja tudo estruturado em sua vida, o que acha? Pense nisso.

Por tudo que eu li em seu relato sugiro também que, procure fazer uma consulta com o psiquiatra para avaliar o seu estado geral de saúde mental e, procure realizar consulta com uma psicóloga para ajudá-la em todas essas questões que te afligem, mas não esqueça Tamara precisamos do passado, presente e futuro, pois o passado visitamos e lembramos dos erros, acertos, dores e momentos felizes, no presente é importante que, "viva o presente o aqui e agora", e no futuro é a mistura do passado+presente, então viva agora busque olhar para mulher de 36 anos que vivenciou muitas coisas, mas que mesmo inconscientemente não desiste, comece a se olhar mais, se olhe no espelho se admire, e aprecia o que ver, ame essa mulher que você é, sua fraqueza te movimenta sem você sentir te trouxe até aqui.

Eliane Weber Psicólogo em Salvador

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Olá!. Obrigado por participar. Seu texto indica uma boa interação com as palavras, boa bagagem cultural, detalhamento do histórico. Trinta e seis anos, é menos da metade da expetativa de vida de uma mulher. Permita-se ser ajudada. Os outros rirem da gente, representa uma ilusão de conhecimento do nosso mundo interno, ao mesmo tempo em que, representa forma de fugir das dores do mundo interno deles. Certamente seu mundo interno é muito rico, você, mesmo com dores, olha para dentro dele. Permita-se buscar interações sociais, buscar estímulos para coisas agradáveis no esporte, na arte, na literatura, mas integre-se. Com o tempo, você será levada, por si mesma, com a participação do contexto social, a ver coisas interessantes das mais diversas áreas da vida. Seu pai e sua mãe são seres humanos, com defeitos e qualidades, ,mas cada qual, tentou, a seu modo, fazer o melhor que pode. Você tem a consciência que quer mudar seu jeito de viver. Permita que pessoas boas e éticas te deem a mão para que você viva diferente. Procure um psicólogo. Um abraço: Ary Donizete Machado - Psicólogo Clínico.

Ary Donizete Machado Psicólogo em Limeira

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