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A Negligencia é um Mal Silencioso e Devastador

KellyAlmeida1KellyAlmeida1
editado October 2017 em Desenvolvimento pessoal
Ser negligenciado não te permite levar cicatrizes físicas para demonstrar o abuso que sofreu, porém pode causar danos irreparáveis na sua formação pessoal, profissional, emocional e familiar.

Muitos que convivem comigo me acham animada, alto astral, de bem com a vida, porém não sabem todo o esforço que tenho para me manter sã e permitir que os traumas que tenho fiquem controlados a ponto de me atrapalhar o mínimo possível no convívio social e pessoal.

Quanto mais silenciosa e velada, mais prejudicial a negligencia pode ser. Pois muitas vezes o fato de ela ser mascarada faz com que quem passa por ela demore para identifica-la e com isso fique por anos sofrendo por conta de distúrbios aleatórios sem diagnósticos efetivos.

Vamos ao exemplo real (mais conhecido como meu relato pessoal):

Fui uma criança saudável, filha única até os 12 anos de idade, morando com papai e mamãe, família pequena do interior de São Paulo, única neta, única sobrinha, aparentemente o estereotipo de uma criança mimada e protegida. Então, para trazer para minha realidade, nessa equação você inclui um pai que adquiriu problemas de saúde graves, uma mãe criada num regime militar e dependente dos pais, o fato de nenhum integrante da família gostar de conviver com crianças e os avós maternos morando na mesma residência.

Raio X familiar:

Pai - órfão e diagnosticado com um tumor intracraniano ocasionado por cisticercose, que o colocou por anos impossibilitado de gerir financeiramente sua família

Mãe - tornou-se “cuidadora oficial” e sofredora devido a má sorte e criou o perfil mártir

Avô Materno - arcava com os custos financeiros e assim impunha sua postura militar sobre todos

Avó Materna - expectadora por ser submissa as ordens do marido, inclusive sem manifestar qualquer intenção em cuidar do bebê para que minha mãe pudesse trabalhar fora (mas devo considerar que minha mãe também nunca se mostrou interessada em trilhar esse caminho).

Cresci nesse lar desestruturado e com a morte de meu avô e a chegada de minha irmã as coisas só pioraram. Eu me tornei chefe de família e a que zelava por todos e levei essa bandeira por anos a fio pois me sentia responsável por todos e ninguém, em momento algum, me fez enxergar o contrário.

Sai de casa com 19 anos porém mantinha financeiramente todos e em nenhum momento me passou pela cabeça que eu poderia construir minha própria família, até porque eu já tinha essa responsabilidade muito concreta de cuidar de uma família já existente.

Estudei, me formei, trabalhei exaustivamente até que minha saúde entrou em colapso aos 35 anos e eu fraquejei. Tive uma estafa mental e fui internada por 2 meses e obrigada a retornar para a casa da família. Só ai percebi, enfim, que todas as minhas decisões foram tomadas precocemente e sem espaço para respirar, analisar ou perceber que poderia ter feito escolhas diferentes. Observei que não percebi a minha vida passando, pois só dei sequência para o turbilhão no qual fui inserida desde sempre.

Hoje faço analise pois me sinto frustrada por ter percebido somente após uma crise, o quão longe eu fui sem olhar para trás ou ao menos me dado conta que estava agindo roboticamente.

Todas as poucas relações interpessoais que tive, por todos esses anos, foram superficiais já que inconscientemente determinei não ter espaço para incluir mais um item em minha bagagem. De forma simples eu fui vivendo freneticamente e me alimentado de muito trabalho para matar as horas e maquiar os anos que passavam. Eu não me permiti pensar a respeito pois também carregava a culpa por sentir o desejo de abandonar essa missão, então falava a respeito brevemente a poucos que poderiam apenas ouvir sem julgar.



Enfim, hoje sou uma mulher madura e ciente que construir uma família e educar uma criança vai muito além de engravidar e ter grana para pagar o colégio. Sou fruto de uma omissão absurda que me cegou por anos a ponto de perder o “time” de iniciar minha vida da forma que eu desejar. Muitos podem julgar, obviamente, porém vale lembrar que quando você cresce num ambiente e desconhece uma realidade diferente da que você vive isso passa a ser o normal então você naturalmente vive sem sofrimento pois é a vida que você conhece. Conhecer outras pessoas me permitiu por anos comparar meus conhecimentos e, como já disse lidar com a culpa que senti por querer largar tudo porém me mantive fiel por covardia ou qualquer outro sentimento que sinceramente hoje ainda não sei classificar.

Nunca me vitimizei, sofri ou me caracterizei como coitada até porque isso seria mentira. Apenas aprendi direitinho e me negligenciei.



Vamos falar a respeito!

Comentários

  • FatimaMarceliFatimaMarceli
    Oi Kelly!
    Realmente o que você passou não deve ter sido nada fácil, mas acho que é muito normal as pessoas pensarem antes na família! Acho que muitas pessoas são levadas a nem raciocinar sobre esse tipo de situação, acho que acabamos apenas fazendo, como se fosse algo que jamais precisaria de questionamentos.
    Mas como você mesmo conta, não é saudável para ninguém abrir mão de tudo e esquecer do mais importante, que é a própria saúde!
    O que você fez pela sua família foi muito bondoso, mas com isso você precisou abrir mão da sua vida.
    E como estão as coisas agora, você continua dando apoio para a sua família?
  • Laurinha7Laurinha7
    Não sei se posso dizer q fui negligenciada. Fui "abandonada" pela minha mãe e criada pelos meus avós.. eles nunca deixaram o básico faltar, mas na questão de amor e carinho nunca tive mto..
    meus avós, como mtos dessa geração, foram criados de maneira diferente, trabalharam desde muito novos e acho que eles nem sabem o q é receber amor e carinho de pais.. e pro consequência fui criada assim tb.. isso fez com q eu me tornasse uma pessoa mto sozinha.. não sinto q tenho capacidade de fazer as coisas, não sei se um dia terei algum tipo de sucesso..
    tive uma infância e adolescência um pouco sofrida, sempre fui alvo de piadinhas e de apelidos maldosos.. isso mexeu mto com a minha autoestima, não gosto de nd em mim..
    vc conseguiu superar algum desses teus "traumas" Kelly?
  • AnaMaria17AnaMaria17
    Não é só a negligência que é um mal silencioso. Eu nunca fui negligenciada pela minha família, mas sempre tive uma certa pressão para ser a "melhor" em tudo. Eu tinha que ser a mais bonita, a mais inteligente, a mais esportiva, a mais tudo. E hoje o que eu sou? A mais frustrada! Não tenho autoestima nenhuma, sempre acho que não sou boa suficiente, que não sou capaz de fazer as coisas.
    No meu caso não foi negligência, mas tenho problemas que não consigo superar.
  • GlauMoreiraGlauMoreira
    E pensem que existem casos de negligência muito pior do que o da Kelly!
  • FatimaMarceliFatimaMarceli
    Verdade Glau. Mas ser pai não é tarefa simples, as vezes a gente acha que está fazendo a coisa certa, mas a gente nunca sabe como isso vai afetar os nossos filhos. São muitas incertezas e as vezes o que você acha que é o melhor acaba tendo impactos que você nunca imaginou!
  • GlauMoreiraGlauMoreira
    Esse é um dos motivos pelos quais não quero ter filhos. Você pode fazer tudo por um filho e mesmo assim nada dar certo.
    Não sei se conseguiria viver sabendo de que tudo que eu fizesse ia afetar tanto a vida de uma pessoa.
  • FatimaMarceliFatimaMarceli
    Entendo seu ponto de vista, Glau! Realmente tudo que a gente faz afeta os filhos, mas nem sempre isso é algo ruim! Você pode afetar de maneiras positivas também.
  • KellyAlmeida1KellyAlmeida1
    Repensar sobre assuntos que nem sempre são comentados é muito saudável para o ser humano. Eu consegui superar meus traumas através de terapia pois acredito que esses assuntos não devem ser conversados em mesa de bar e sim com alguém que nos ouça com a mente aberta e sem pré julgamentos. Cada um tem uma historio e ela não é nem melhor nem pior... é unica! Então o que pode ser um transtorno para um não chega a ser mera lembrança para o outro e assim vai. A terapia é importante demais quando levada a serio e principalmente quando o analisado deseja realmente superar os obstáculos que a vida apresentou.
    Hoje me considero uma pessoa plena e capaz de lidar com naturalidade com qualquer situação pois não carrego magoas, fantasmas ou frustrações como a síndrome da impotência.
    Abram a mente para a vida com a certeza que tudo é possível de ser resolvido e superado.
    Obrigada por dividir comigo suas observações.

    Saúde e paz para todos!!
  • AnaMaria17AnaMaria17
    Que bom que você conseguiu superar os seus traumas e hoje está bem! Acho que isso é o mais importante! Como você disse, as vezes algo que achamos simples é um grande problema para uns.
    Você fez quanto tempo de terapia, Kelly? E hoje em dia, você ainda faz?
  • FatimaMarceliFatimaMarceli
    Que bom mesmo que você conseguiu superar isso, Kelly! Acho que foi muito importante você buscar ajuda profissional. As vezes a gente não dá tanta importância para algumas coisas como deveríamos!
  • KellyAlmeida1KellyAlmeida1
    Olá meninas!
    Faço terapia a 2 anos porém vale ressaltar que ao decidir iniciar devido também que daria o meu melhor para fazer a análise ser produtiva pois o profissional nada consegue se não fizermos a nossa parte.
    Muitas coisas estavam celadas em minhas lembranças e foi graças a forma como as sessões foram conduzidas que tudo foibtrazido as claras.
  • AnaMaria17AnaMaria17
    O que você quer dizer com fazer a nossa parte na terapia? Você diz em se abrir e conseguir contar tudo?
  • KellyAlmeida1KellyAlmeida1
    Bom dia!!
    Talvez o se abrir seja a parte mais fácil da terapia, pois com isso vc vai dividir com o terapeuta fatos que são importantes para compreender como chegou a algumas situações.
    Na minha opinião, a parte mais difícil da terapia é o confronto com situações traumaticas. Nesse ponto vc precisa estar disposto a mergulhar no momento, situação ou vivência e se possível despir-se de conceitos prévios para compreender pq determinado ocorrido culminou no trauma.
    Mexer nas gavetas das lembranças não é uma tarefa simples e algumas vezes vamos perceber fatos que nem nos recordávamos e pode aliviar ou doer mais... então entendo que dedicar-se a terapia e buscar a “cura” emocional é um trabalho de intensa dedicação.
    No meu caso, precisei reviver inúmeras situações e até períodos que num primeiro momento eu nem tinha lembrança... mas na verdade elas estavam lá ocultas e veladas... só esperando para me surpreender de forma negativa em algum momento de plenitude... pq sim, no meu caso os fragmentos sem sentido voltavam para me assombrar nos momentos em que eu estava sempre na minha melhor fase.
    A terapia é fundamental para minha saúde mental e não pretendo interromper o acompanhamento pois percebo como é importante ter esse momento com meu terapeuta... esse pequeno período semanal onde desconecto do mundo e me interiorizo... onde busco o melhor unicamente para mim e me sinto rebocada por falar sem culpa.
  • KellyAlmeida1KellyAlmeida1
    Rebocada não... rs... renovada *
  • AnaMaria17AnaMaria17
    Entendi, Kelly. Realmente não deve ser fácil remexer em coisas esquecidas, ainda mais quando a gente coloca certas lembranças lá no fundo da gaveta para nunca mais ter que lembrar que elas existem!
    Você tem feito a terapia sempre com o mesmo psicólogo? Como é seu acompanhamento agora, é frequente?
  • KellyAlmeida1KellyAlmeida1
    Faço meu acompanhamento com o Dr Henrique que é um profissional maravilhoso e indico inclusive, minhas consultas são toda a quarta-feira e não pretendo interromper pois me faz um bem indescritível.
    Hj consigo falar sentidos esses assuntos sem peso, de forma leve e com sentimento de paz... tenho certeza que cada dia será melhor pois agora já estou avaliando a dificuldade que sempre tive de ter relacionamentos longos... eu sempre “fugia”
  • FatimaMarceliFatimaMarceli
    Muito bom ler comentários como o seu Kelly! Com certeza inspira muita gente!
    Enfrentar nossos problemas nunca é fácil, ainda mais os traumas que a gente faz de tudo para esquecer.
    Que legal que você tem um profissional que tem te acompanhado por bastante tempo, já li alguns relatos aqui na comunidade de psicólogos que "cansam" do paciente.
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