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​Luto perinatal: como sobreviver à dor?

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Elaborar e superar o luto envolve um processo doloroso, particularmente delicado nos casos de luto perinatal, quando a mãe não teve tempo para conhecer/desfrutar da convivência com o filho.

15 MAI 2017 · Leitura: min.
​Luto perinatal: como sobreviver à dor?

A palavra morte é pequena e fácil de dizer, mas elaborar uma perda definitiva, longe de ser fácil ou rápido, trata-se de um processo longo, repleto de sofrimento, principalmente quando se trata da perda de um filho.

Perdas e despedidas sempre causam intenso desconforto e despertam diferentes emoções, trazendo inúmeras dificuldades na adaptação daquele que a enfrenta. Há também o desconforto para aqueles que tentam confortar alguém que esteja passando por esse processo.

A intenção deste artigo é falar do luto perinatal, que ainda pode ser visto como tabu, por ser pouco abordado. Refere-se ao processo e elaboração de luto pela perda de um filho durante a gestação, ou na primeira semana de vida do bebê.

De forma geral, falta conhecimento sobre o assunto. Amigos, colegas e familiares dificilmente conseguem desenvolver a empatia ou a compreensão adequada nesse momento de perda.

Principalmente durante a gestação, o vínculo e afeto costuma se restringir na relação mãe-bebê, e, no triste momento de perda, as pessoas próximas tendem a não compreender a imensidão de emoções que estão sendo vividas naquele momento. Dirigem seus pensamentos ao bebê que já não está, enquanto quem mais necessita de amparo e acolhimento é a mãe.

O luto na maternidade

É confuso não ter seu filho em seus braços, mas ainda assim sentir-se mãe. É o luto por uma vida que crescia dentro de você, de sonhos que construiu para o futuro de vocês, dos momentos que você desejou e que, agora, não terá a oportunidade de viver.

O mais habitual é encontrar pessoas que fazem comentários inadequados, como sugerir que logo você poderá engravidar novamente, sem perceber que a emoção que prevalece é a de que aquele filho nunca foi descartado, nem será substituído.

Sem o bebê presente, ficaram apenas o colo e o abraço que você não pode compartilhar. O filho se foi, mas a sua identidade de mãe não, e isso dói. Para uma mãe, não importa se eram semanas ou meses, a dor será intensa e irremediável quando se trata da perda de um filho.

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Pensamentos de culpa são frequentes, supondo que você fez algo errado durante os dias em que não sabia que estava grávida. Você sente-se incapaz, por não ter conseguido prover aquela vida, sente-se impotente por não ter tido controle, afinal, tudo aconteceu ali, dentro de você e, ainda assim você, não conseguiu controlar.

O coração fica apertado, com medo de a dor nunca passar, de todos ao redor querem sumir com os detalhes da decoração do quarto do bebê, como se ao se desfazer de tudo o mais rápido possível fosse trazer algum tipo de alívio; como se, ao não haver rastros do bebê pela casa, permitisse você fingir que nada aconteceu.

Este é o momento de parar, respirar fundo e refletir: o luto é um processo e, por mais doloroso que seja, por mais que não fará o tempo voltar, ele terá começo, meio e fim.

Elaboração do luto

O luto é composto de 5 fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Durante sua elaboração, serão experimentadas as mais diversas emoções e pensamentos, e, ao aceitar que não se trata de um processo linear, sendo marcado por altos e baixos, essa travessia poderá ser mais leve.

Diferente do que a maioria das pessoas pensa, que incentivar a distração e o esquecimento em momentos de perda é o recomendável, o único caminho para tornar o processo do luto possível é entrar em contato com o sofrimento. No luto perinatal o processo é ainda mais delicado, pois, além de se tratar de um vínculo muito especial, é difícil elaborar a perda de quem parece nunca ter sido nosso.

Nesse sentido, alguns exercícios podem ajudar as mães que compartilham dessa dor:

  • Dê um nome ao bebê: mesmo que você não tenha tido a oportunidade de saber o sexo, siga sua intuição. Dar um nome ajuda na construção da identidade deste filho, facilitando, assim, a despedida.
  • Escolha um espaço para recordações: a escolha de uma caixa ou um baú, na qual poderão ser guardadas ultrassonografias ou objetos simbólicos que atribuam o afeto de suas lembranças, pode ajudar a materializar sua dor. Esse passo é importante para a sensação de conforto emocional.
  • Faça cerimônias de despedida: cerimônias de despedida são fundamentais para ajudar a assimilar acontecimentos e emoções. Simbolizando a despedida, a cerimônia pode envolver desde rituais religiosos ao plantio de uma árvore. Procure uma maneira de se despedir na qual você encontre um significado.

Se você tem outro filho, compartilhe com ele essa perda, permita que ele participe do ritual de despedida, compartilhando o momento e as emoções que esse desperta. Explique tudo o que aconteceu e, principalmente se for pequeno, ressalte que a culpa não é dele. Crianças costumam sentir muito ciúme durante a gestação de um irmão, e, ao perdê-lo, podem fantasiar que foram culpadas pelo ocorrido.

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Apoio profissional

A estimativa de elaboração do luto é de até 2 anos. O tempo é singular para cada pessoa, mas respeitar etapas, entrando em contato com suas emoções, auxilia na elaboração da perda, otimizando o tempo de recuperação.

O acompanhamento profissional do psicólogo pode ser um grande alicerce nesse momento. Além de proporcionar apoio e fortalecimento emocional durante o período, desconstruindo culpas ou temores, auxilia na saúde desta mãe, prevenindo o desenvolvimento de quadros de depressão, ansiedade ou possíveis complicações futuras, como depressão pós-parto, caso ocorra uma nova gestação.

Caso esta mãe não tenha elaborado o luto como deveria por resistência, falta de apoio ou acolhimento adequado por parte dos profissionais ou familiares, ao engravidar novamente, pode reviver idealizações do bebê perdido, confundindo-as com a identidade do novo bebê, o que pode dificultar muito o vínculo após o nascimento.

Artigo: escrito pela psicóloga Maitê Hammoud

Fotos: por MundoPsicologos.com

Escrito por

Maitê Hammoud

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1 Comentários
  • Maria Neirismar

    Excelente artigo. Sou obstétra e, poder vivênciar a dor da perda perinatal dando apoio e colaborando com atitudes para esse momento, é de um crescimento profissional indescritível.

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