Conflitos podem ser saudáveis para o relacionamento

Se você pensar na última briga que teve num relacionamento, consegue dizer o quanto do momento foi culpa sua ou o quanto foi culpa da pessoa com a qual se relacionava?

1 MAI 2017 · Leitura: min.
Conflitos podem ser saudáveis para o relacionamento

Se você pensar na última briga que teve num relacionamento, consegue dizer o quanto do momento foi culpa sua ou o quanto foi culpa da pessoa com a qual se relacionava? E se eu perguntasse a ela, haveria uma concordância? Provavelmente não.

Tendemos a ver as coisas sob nosso ponto de vista. Além de ser a perspectiva padrão que assumimos na vida, é mais fácil termos acesso ao que sentimos ou pensamos. Tal facilidade não é a mesma quando se trata de saber o que se passa com o outro. Isso cria um desequilíbrio. Afinal, naturalmente temos como saber que queremos, como queremos, e como o outro sabota nossos planos. Mas se às vezes temos dificuldades em saber até o que se passa conosco, imagine saber como afetamos o outro. Ou como nós sabotamos os planos alheios.

Quando nossos planos e desejos esbarram com planos e desejos de outra pessoa, surge o conflito. Não é raro quem veja conflitos ou discussões de relacionamento como uma força incontrolável da natureza que destrói tudo que vê pela frente. E o que fazem? "Evitam" conflitos.

Conflito não é briga

Tenho algumas notícias para você. A primeira é que conflitos não são evitáveis. Podemos nos negar a expressá-lo, mas estaremos apenas deslocando o problema para outro lugar, nem que seja para dentro de nós, ou para outro momento num futuro não muito distante. Conflitos fazem parte da existência humana, sejam reais ou criados em nossas próprias mentes (acredite, fazemos muito isso).

A outra notícia é que conflito não é o mesmo que briga, gritaria, barraco, ou coisas do tipo. Conflitos são apenas incompatibilidades, e muitas vezes podem ser resolvidas. Transformar conflitos em guerras diz mais de uma inabilidade (ou desinteresse) em negociação que da natureza do problema.

Resolver um conflito requer esforço racional, empatia, atenção, lógica, escuta, ou seja, habilidades cognitivas avançadas. A questão é que as situações que mais nos demandam autocontrole são justamente aquelas nas quais torna-se mais difícil nos controlarmos. É quando um adicto fica entre a droga e a abstinência, quando ficamos entre a sobremesa favorita e a dieta, ou quando queremos resolver algo em meio a uma briga. Esses são contextos que despertam reações emocionais intensas, como ânsia, apetite, medo, ansiedade ou agressividade.

Agimos de forma reflexiva, seguindo automaticamente gatilhos que trazem as emoções associadas a determinados estímulos. Essas reações emocionais foram importantíssimas na história evolutiva de muitos animais. Medo, por exemplo, tem como responsável a amídala, uma pequena região no cérebro. Ao serem ameaçados por um predador, os animais (incluindo humanos), passam por transformações instantâneas no corpo que os preparam para correr ou lutar. São respostas que não dependem de nós para surgirem. É uma defesa fisiológica natural, mas que às vezes é disparada em contextos errados, como numa discussão.

Um grande desafio para resolvermos conflitos está na superação dessas reações emocionais por meio do autocontrole. Dessa forma, alguém que discorda de nós não será tratado como um predador que quer nos devorar, não ficaremos reféns de estímulos considerados ameaçadores, prontos para fugir ou lutar, limitados em nossa capacidade de negociar.

A boa notícia para nós humanos é que, graças ao nosso córtex pré-frontal (mas não apenas), temos a capacidade de pensar e planejar maneiras de superarmos determinadas situações às quais a amídala responde automaticamente. Assim, um conflito não necessariamente deve evoluir para a terceira guerra mundial. Lembre-se disso da próxima vez que a fúria ou ansiedade tentarem tomar o controle. Temos a capacidade de agir de outra forma além de gritar, chorar, quebrar coisas, culpar, etc., mas isso requer certo treino.

Como o conflito pode ser saudável?

Conflitos funcionam como um indicativo que algo precisa mudar. Nesse sentido, podem ser considerados como uma oportunidade para melhorar o relacionamento. É um sinal, cabe a nós decidirmos como vamos aproveitá-lo, lidando com algo que é ou pode se tornar um problema.

Outra coisa é que os conflitos dificilmente são literais, raramente são sobre o que aparentam. Por exemplo, o atraso da pessoa com quem nos relacionamos não é o motivo por estarmos com raiva. Geralmente é algo mais profundo. Ficamos chateados porque é uma ação que mostra que o outro não valoriza nosso tempo igualmente, que não se interessa pela atividade proposta, ou que aprecia outra atividade além de ficar conosco. Os motivos disfarçados de insatisfação com o atraso podem ser os mais variados. Mas, para conhece-los, precisamos refletir, e entrar em contato conosco. Enquanto ficarmos discutindo sobre ato de atrasar, ou outras coisas superficiais, não estaremos dando atenção ao problema de fato.

Contudo, no calor do momento dificilmente conseguiremos descobrir qual a verdadeira base do conflito. Quando a amídala assume o controle, nossos pensamentos são afetados. Nos tornamos irracionais, reativos, falamos e fazemos coisas que depois nos arrependeremos. É mito aquela história de que quando estamos com raiva falamos a verdade. Com raiva falamos com raiva, e só. Num estado emocional alterado nossas expressões são diferentes. Infelizmente, aquelas pessoas com as quais mais nos importamos, de quem mais gostamos, geralmente são os principais receptáculos de nossas iras, frustrações e outras negatividades. Afinal, quanto mais intimidade temos, mais nos sentimos confortáveis para nos abrir. Geralmente passamos mais tempo com quem nos relacionamos, e essa pessoa provavelmente terá maior probabilidade de estar por perto quando estouramos de alguma forma.

Isso nos leva a outro pronto produtivo dos conflitos: mostrar a interdependência de nossa vida com a de outra pessoa. Afinal, se não dependemos de alguém, dificilmente teremos conflitos. Nossa bagagem emocional e experiências nos tornam como somos, diferentes das outras pessoas. É impossível dividir uma vida com o outro sem que vez ou outra nossos objetivos se atrapalhem. É nesses momentos de divergência que podemos notar a importância da outra pessoa, nosso envolvimento, quando queremos adequar as coisas para que o relacionamento prospere. Estes contextos dizem de nós, de nossas aspirações, mas revelam também sobre a disposição do outro, e nossa importância.

O importante não é o "se", mas o "como"

É comum estudos que mostram como o conflito é ruim para relacionamentos, levando à insatisfação com a relação, separação, violência doméstica e afetando o bem-estar das crianças. Mas, como vimos, conflitos são inevitáveis. É impossível estabelecer vínculos sem vez ou outra discordar em pequenas ou grandes coisas. Assim, a questão não é "se" teremos conflito ou não, mas "como" resolvê-los. Não há receitas prontas para isso. Cada pessoa tem suas características, o que faz com que cada relacionamento também seja único. Não sou fã de "X dicas ou passos para", mas há algumas posturas que podem ajudar ou atrapalhar.

Geralmente em discussões assumimos nosso ponto de vista. Mas mesmo assim, nem sempre sabemos qual é a questão que nos chateia. Pode ser que o problema não seja de fato o atraso, a toalha molhada ou a preferência pelo que fazer no fim de semana. É importante nos conhecermos para não ficarmos fazendo demandas infecundas, procurando soluções substitutivas que não ajudarão em nada. Importante também é saber quando estamos migrando um conflito externo para dentro de nós, ou quando estamos projetando fora um conflito nosso.

"A melhor coisa de um ponto de vista é que podemos muda-lo", diria Latour. Lembra daquela briga memorável que lhe pedi para recordar no início do texto? Volte no tempo, e imagine alguém de fora assistindo tudo aquilo. Alguém que tenta ser imparcial, e somente quer que a situação se resolva e tudo fique bem. Quantas vezes essa pessoa lhe viu ter um comportamento negativo, que em nada ajudou a resolver a situação?

Uma boa comunicação requer que nós analisemos a situação com outros olhares, e não fiquemos presos somente a uma perspectiva. Há muito ruído entre o que pensamos comunicar, como efetivamente comunicamos, e como a outra pessoa recebe a mensagem. Se eu disser "camisa amarela", dificilmente você pensará a mesma coisa que estou pensando. Por isso, é importante considerarmos também como a mensagem irá se propagar, e como ela pode ser interpretada. Muitos problemas seriam evitados simplesmente em avaliar esses elementos.

Já que deslocamos um pouco nosso ponto de vista, que tal tentarmos assumir o olhar do outro? Um dos preceitos básicos da empatia é sabermos caminhar por diferentes pontos de vista. É tentar entender as outras pessoas, e respeitá-las. É suspender as caixas nas quais as colocamos e perguntar como realmente se sentem, como poderíamos melhorar a situação. É evitar o orgulho e não rebater o que disseram. Mas isso só funciona se ouvimos, e nos mantemos abertos. Simplesmente dar um tempo para a pessoa falar e já ficar se apegando em como contrapor os argumentos não é de fato um exercício empático.

Isso não é fácil, principalmente quando a outra pessoa não está disposta a sair um milímetro sequer de sua posição. E quanto mais os ânimos se esquentam, mais nos fechamos. Se sentimos que não há receptividade, a situação torna-se ameaçadora, e tendemos a ficar na defensiva. Como numa brincadeira de "rouba bandeira", em que eu me preocupo mais em proteger a minha, e não saio do meu lugar por medo de perder o jogo. É por essa razão que a empatia, e consequentemente a compreensão, são bastante úteis na resolução de conflitos.

Quando sentimos que somos compreendidos não temos mais do que nos defender. Todas aquelas reações desproporcionais da nossa querida amídala perdem a força. Quando o foco passa de "ter razão" para "encontrar solução", o conflito deixa de ser algo negativo e tornando-se algo construtivo. A empatia inclusive pode ajudar nas discordâncias que talvez não tenham solução, como questões políticas, religiosas ou de personalidade. Quando se entende e se respeita o outro, é possível "concordar em discordar", sem que isso se torne uma briga de tempos em tempos.

Como seria na prática?

A primeiro ponto a ter em mente quando um conflito surge é considerar a pessoa com a qual nos relacionamos como um membro do mesmo time. É ter a meta de encontrar uma solução juntos, e não uma disputa de quem está certo ou errado. Se a coisa vai por este caminho, todos perdem. Resista à tentação de ter a última palavra!

Resolver conflitos é uma espécie de jogo, e nenhum jogo funciona sem regras. É interessante, com cabeça fria, estabelecer limites para as discussões. Gritar, xingar, ou outros comportamentos abusivos podem ser considerados como falta de fair play, requerendo a interrupção da discussão antes que os ânimos piorem.

É importante tentar resolver conflitos somente quando as partes envolvidas estão calmas. Quando somos tomados por raiva ou ansiedade, não pensamos direito e provavelmente só vamos piorar a situação. Tome um tempo para se acalmar. A solidão ajuda a colocar os pensamentos em ordem, assim como atividades prazerosas podem nos distrair um pouco da tensão. Se você é a parte calma da discussão com alguém que se alterou, não prossiga até que o outro se acalme, mesmo que insista contigo pelo contrário. A verdade é que você estará fazendo um favor ao relacionamento.

Caso decida por ficar um tempo só, tente ir apenas para outro cômodo e não sair de casa. Algo que pode servir de gatilho para a ansiedade da outra pessoa, principalmente se ela tiver questões relativas a abandono. Sair de casa faz com que ela pense que pode ser abandonada em qualquer briga.

Falando em cômodos, não é recomendável ter grandes discussões no quarto, pois as emoções negativas podem ser associadas ao sono ou à intimidade. É sério! Você se surpreenderia com o quão facilmente associamos estímulos, principalmente se estamos abalados emocionalmente.

Vocês sempre poderão retomar uma discussão com a cabeça mais fria. E caso não retomem, provavelmente aquele ponto não era importante de verdade, e a raiz do conflito seja mais profunda. Se caso quando retomarem as emoções se aflorem novamente, parem. É melhor deixar para outro momento do que insistir numa discussão acalorada.

Provavelmente você já ouviu algum terapeuta de casais dizer por aí que não é recomendável irem dormir com raiva. Isso realmente é importante. E tão importante quanto é entender a diferença entre "concordar em discordar" e realmente continuar à mercê da ira. Às vezes vocês não chegaram num acordo, e não vai adiantar nada perder a noite de sono. No dia seguinte o preço será mais irritação. O conflito pode ser resolvido outro dia. Vale a pena interromper uma discussão com tranquilidade em nome de uma boa noite de sono. Dificilmente um debate que já dura mais de uma hora resultará em algo produtivo. E cansados reagimos pior ainda.

É bom considerar que nem sempre a outra pessoa está má intencionada. Às vezes ela não sabe porque age de determinada maneira. Tenha como um de seus objetivos compreender o porquê do outro se sentir daquela forma. Depois de resolver o conflito, um pedido de desculpas pelos momentos em que você não colaborou com a solução ajuda a diminuir o sentimento de ameaça no relacionamento.

Como eu disse, não há um passo a passo para a resolução de conflitos. Porém, não ficarmos presos aos nossos pontos de vista e mantermos o autocontrole, não tomando atitudes quando estamos abalados, certamente nos ajuda a encontrar soluções. Se os dois estiverem dispostos, a coisa flui melhor ainda. O foco do texto foi os conflitos em relacionamentos, mas as sugestões servem para outros contextos, inclusive nossos conflitos internos.


Deutsch, M; Coleman, P & Marcus, E (Eds.) - The Handbook of Conflict Resolution - Theory and Practice.

Escrito por

Edvaldo Colen

Ver perfil
Deixe seu comentário

últimos artigos sobre terapia de casal