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Bullying e depressão: o relato de uma adolescente que tenta sobreviver

Se a adolescência já é uma fase difícil, imagine com bullying, depressão, crises de ansiedade e tentativas de suicídio! Este relato é um sinal de alerta para a necessidade de diálogo.

27 Nov 2017 Crianças e adolescentes - Leitura: min.

psicólogos

O relato de hoje traz a trajetória de uma adolescente. Se publica no site porque não deixa de ser um sinal de alerta! Um alerta aos indicativos da presença de transtornos psicológicos graves, que costumam ser ignorados nesta etapa da vida, justificados por uma mera "fase de rebeldia". Mas também um alerta para a necessidade de diálogo dentro da família, de acolhimento e empatia, já que são indispensáveis para que haja um tratamento eficiente e o controle dos sintomas.

Relato real de Julienne (nome fictício)

Tudo começou quando eu era apenas uma criança, meus pais estavam em um meio caótico e isso era tóxico para mim e minha irmã. Meu pai estava traindo a minha mãe com outras mulheres, quase todos os dias nós tínhamos que ouvir diversas coisas, e isso nos afetava muito. Muitas das vezes ficávamos doentes por essas brigas.

E o pior não era isso, porque eu não conseguia respirar nem fora de casa. Na escola em que estudava, sofria bullying, tanto verbal quanto físico. Isso fez com que desde pequena eu tivesse a autoestima baixa, e simplesmente desconfiava de todos ao meu redor.

Minha vida nunca foi normal como a de outras crianças, eu não tinha ninguém para falar, sempre me senti sozinha, mesmo que milhões de pessoas estivessem ao meu redor.

Quando eu finalmente mudei de escola, eu ficava bem na minha, com medo do passado voltar. Aos 13 anos eu comecei a ter depressão, todas as coisas ruins aconteceram muito rápido comigo. Eu me sentia sozinha na maior parte do tempo, nessa época eu não tinha ninguém e foi quando eu comecei a me machucar.

Vocês devem estar pensando, e é verdade. A coisa foi se agravando. Até um ponto em que eu fazia isso 20 vezes ao dia. Ficava com várias cicatrizes no pulso, sangrei tanto a ponto de pensar que eu ia morrer. Eu não saia de casa, só ficava no meu quarto trancada, isso se prolongou até o final de 2014.

Acho que 2014 foi o meu pior ano, pois foi quando eu comecei a ter crise de ansiedade, ataque de pânico e insônia. Foi um tempo em que tudo estava dando errado na minha vida, muito mais que no ano anterior. Eu tava péssima na escola, minhas notas estavam muito baixas, eu não conseguia me concentrar em nada, eu não conseguia fazer nada...

Minha irmã e minha prima viram meu braço e me obrigaram a contar o por quê disso. Ameaçaram de contar a toda a minha família, e, no final, elas acabaram contando mesmo.

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O que eu tive que escutar

Meu pai falou várias coisas horríveis para mim, mesmo ele não tendo direito de falar nada, já que tinha me abandonado e só falava comigo quando eu ia atrás. Aliás, ele só falava comigo quando eu fazia algo de errado. E minha mãe foi outra que me magoou bastante nessa época.

Se eu já não me sentia bem em casa, o fato de descobrirem que eu me cortava só agravou ainda mais a situação. Nem privacidade eu tinha. Eu chorava todo dia no banheiro da escola, e lá mesmo me machucava.

Quando eu vi que não dava mais para continuar viva, me afastei da única pessoa que eu tinha então, meu melhor amigo. Esse foi o maior erro que cometi.

Depois disso tentei me suicidar. Como você pode ver, continuo viva, porém eu tive convulsões, quase ninguém sabe do ocorrido, eu fiquei dias sem conseguir falar direito, não conseguia comer e meu estômago doía muito.

Eu estava desabando, mas acabei encontrando alguém que me ajudou bastante. Eu melhorei, parei de me machucar, voltei a viver, muito graças a essa relação. Essa pessoa permaneceu na minha vida por quase três anos. Infelizmente a convivência ficou meio tóxica e acabamos nos afastando neste ano.

Eu já não estava totalmente sozinha, tinha duas pessoas com as quais eu podia me abrir e contar tudo. Mas meus problemas não acabaram. Teve outra tentativa de suicídio, uma semana no hospital, muito sofrimento e sabe o pior? Minha mãe nem desconfiava do que eu tinha feito.

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Impotência e resignação

Hoje em dia eu apenas finjo que tudo está bem. Acho que ninguém percebe que eu tenho me desmoronado. Eu sei que tenho pessoas maravilhosas na minha vida, que posso contar tudo, mas não é tão simples... Eu sou tão fechada, e isso acaba me sufocando mais ainda.

Eu não me sinto bem na minha própria casa, não acho que é um lugar onde posso ser eu mesma, não sinto que aqui é meu lugar.

Sempre me senti deslocada em qualquer lugar que estivesse, é como se eu estivesse destinada apenas a sofrer e ser magoada pelas pessoas que mais amo. Eu sempre tentei ajudar a todos ao meu redor, mas acabei esquecendo de mim mesma.

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Julienne* vive um dilema que compartilha com muitos adolescentes. Não encontra espaço para falar de seus problemas em casa, sente que sua dor não deixa de ser invisível, o que compromete seriamente o acesso à psicoterapia e aos tratamentos que poderiam contribuir para enfrentar os transtornos e minimizar o impacto negativo em suas vidas.

Meus pais têm um pouco de preconceito e não entendem muito do assunto. Já pedi uma vez para minha mãe para ir ao psicólogo, mas ela ficou fazendo muitas perguntas e fiquei desconfortável, acabei desistindo. Meu pai já quis me internar por causa dos cortes, segundo ele eu tava louca.

Desentendimentos como os explicados por Julienne* poderiam sem minimizados com uma postura mais franca e aberta por parte dos pais e responsáveis. A terapia para um adolescente depende de consentimento, e o fato de o jovem não se sentir confortável para falar sobre seus problemas pode inibir o pedido de ajuda, tão necessário para evitar situações drásticas.

Se você se sente identificado, seja como pai ou como adolescente, aproveite o relato para refletir sobre esta questão e tentar atuar de forma positiva. Para que o diálogo exista, ambos devem estar predispostos.

Leia mais: Terapia para adolescentes: o passo a passo para conseguir um psicólogo

*Julienne - nome fictício

Fotos: por MundoPsicologos.com

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