Antidepressivos estão “matando” o desejo sexual? A conversa que quase ninguém tem sobre sexo, depressão e intimidade
Você começou um antidepressivo. A ansiedade melhorou um pouco. A tristeza diminuiu. Talvez você esteja funcionando melhor no trabalho. Dormindo mais...
Talvez você esteja conseguindo trabalhar melhor, dormir melhor ou, aos poucos, voltar a respirar emocionalmente.
Mas existe algo estranho acontecendo.
Você olha para a pessoa que ama e sente… menos.
Menos desejo.
Menos vontade.
Menos excitação.
Ou talvez a vontade exista, mas o corpo pareça distante.
O orgasmo demora.
A lubrificação mudou.
A ereção não acontece da mesma forma.
A sensibilidade parece diferente.
O prazer ficou mais longe.
E então surge uma pergunta silenciosa, carregada de medo, culpa e vergonha:
"Será que sou eu… ou é o remédio?"
Talvez uma das partes mais difíceis dessa experiência seja justamente o silêncio.
Pouca gente fala sobre isso.
Quando o assunto é antidepressivo, normalmente ouvimos sobre melhora do humor, ansiedade, sono e qualidade de vida. Quase ninguém prepara as pessoas para uma conversa delicada: em alguns casos, o tratamento pode impactar a sexualidade.
E isso mexe profundamente com algo íntimo.
Porque sexo, para muitas pessoas, não é apenas sexo.
Sexo é conexão.
É autoestima.
É proximidade.
É espontaneidade.
É prazer.
É pertencimento.
É intimidade.
É vínculo.
É sentir-se vivo(a).
É sentir-se desejado(a).
É perceber que o corpo responde.
Por isso, quando mudanças sexuais aparecem, não é apenas a vida sexual que sofre.
A autoestima sofre.
A relação sofre.
A confiança sofre.
O jeito de se perceber muda.
E muitas pessoas entram num sofrimento silencioso.
Pensam:
"Talvez eu tenha deixado de amar."
"Talvez meu relacionamento esteja acabando."
"Talvez eu esteja quebrado(a)."
"Será que nunca mais vou voltar ao normal?"
"Será que nunca mais vou sentir desejo?"
Só que existe uma verdade importante:
Nem toda dificuldade sexual significa falta de amor.
Nem toda perda de desejo significa desinteresse pelo parceiro(a).
Às vezes existe sofrimento emocional.
Às vezes existe ansiedade.
Às vezes existe depressão.
E, em alguns casos, podem existir efeitos relacionados ao tratamento.
Aqui existe uma ironia dolorosa.
A própria depressão frequentemente já afeta a sexualidade antes mesmo do primeiro comprimido.
Muitas pessoas chegam ao consultório emocionalmente exaustas, sem libido, sem energia, sem prazer, sem motivação, sem presença no próprio corpo.
O desejo desaparece.
O orgasmo muda.
A energia sexual diminui.
A espontaneidade some.
Então, quando o tratamento começa, surge uma confusão compreensível:
O que está acontecendo comigo?
É a depressão?
É o antidepressivo?
É ansiedade?
É o relacionamento?
É estresse?
É cansaço?
Às vezes, a resposta não é simples.
Às vezes, é uma combinação de tudo isso.
Algumas pessoas percebem melhora sexual conforme o humor melhora.
Outras descrevem o oposto: menos desejo, orgasmo mais difícil, dificuldade de excitação, alteração da sensibilidade genital, menor lubrificação, dificuldade erétil ou sensação de desligamento emocional do prazer.
Talvez uma das experiências mais angustiantes seja esta:
"Minha cabeça quer, mas meu corpo não responde."
Ou:
"Eu amo meu parceiro(a), mas não consigo sentir vontade."
E isso costuma machucar profundamente.
Porque quando a sexualidade muda, dificilmente o sofrimento fica apenas dentro da pessoa.
Ele entra na relação.
Um parceiro pensa:
"Você não me deseja mais."
Outro se culpa:
"Não sei o que aconteceu comigo."
Um sente rejeição.
Outro sente vergonha.
Um cobra.
Outro se afasta.
E sem conversa, a sexualidade vira um território de silêncio, medo e sofrimento.
Talvez uma das partes mais dolorosas disso seja a interpretação.
Porque quando ninguém fala, a mente cria histórias.
Quem deseja mais pode pensar:
"Já não sou atraente."
"Tem outra pessoa."
"Meu parceiro(a) não sente mais nada."
Quem está sofrendo sexualmente pode pensar:
"Estou estragando meu relacionamento."
"Nunca mais vou voltar a ser quem eu era."
"Meu corpo falhou comigo."
"Sou insuficiente."
Mas existe algo importante de lembrar:
Mudanças sexuais não definem quem você é.
Uma fase difícil não define sua masculinidade.
Não define sua feminilidade.
Não define sua potência.
Não define sua capacidade de amar.
Não define sua atratividade.
Não define seu valor.
E talvez aqui exista uma conversa muito necessária:
Sexualidade importa.
Falar sobre isso não é superficialidade.
Não é exagero.
Não é egoísmo.
Não é "pensar só em sexo".
Sexualidade faz parte da saúde mental.
Da autoestima.
Da identidade.
Da intimidade.
Do relacionamento.
Da qualidade de vida.
Do pertencimento ao próprio corpo.
E talvez por isso tanta gente sofra em silêncio.
Por vergonha.
Por medo.
Por constrangimento.
Porque muitas pessoas pensam:
"Meu médico vai achar isso bobo."
"Parece errado me importar com sexo enquanto estou deprimido(a)."
"Tenho vergonha de tocar nesse assunto."
Só que vergonha costuma aumentar sofrimento.
E silêncio raramente resolve aquilo que dói.
Existe ainda algo delicado que quase ninguém fala:
Algumas pessoas interrompem antidepressivos sozinhas.
Sem orientação médica.
Porque ficam desesperadas com mudanças no desejo, orgasmo, excitação ou prazer.
Mas parar um antidepressivo sem acompanhamento pode trazer riscos.
Mudanças bruscas podem aumentar sofrimento emocional, intensificar ansiedade, piorar sintomas físicos ou favorecer recaídas.
Isso não significa que você precise simplesmente aceitar tudo em silêncio.
Significa que existe espaço para conversa.
Ajustes podem existir.
Escuta clínica importa.
Avaliação individual faz diferença.
Nem todos os medicamentos afetam sexualidade da mesma forma.
Nem todas as pessoas respondem igual.
Nem toda dificuldade permanece para sempre.
E talvez uma das perguntas mais importantes seja esta:
Você tem conseguido falar sobre o que está acontecendo?
Porque quando a sexualidade muda, raramente muda apenas o sexo.
Muda a proximidade.
Muda a forma de tocar.
Muda o jeito de se aproximar.
Tem pessoas que começam a evitar abraço.
Evitar beijo.
Evitar carinho.
Não porque deixaram de amar.
Mas porque têm medo da expectativa.
Medo de frustrar.
Medo de não corresponder.
Medo de falhar.
E sem perceber, o casal começa a se afastar emocionalmente.
O quarto fica silencioso.
A insegurança cresce.
A distância aumenta.
E algo que poderia ser nomeado começa a parecer irreparável.
Só que talvez a pergunta não seja:
"O antidepressivo destruiu minha sexualidade?"
Talvez seja:
"O que exatamente está acontecendo comigo?"
Essa pergunta merece curiosidade.
Merece acolhimento.
Merece escuta.
Merece cuidado.
Merece conversa honesta com profissionais de saúde.
Porque quando alguém perde desejo, nem sempre perdeu amor.
Às vezes perdeu energia.
Às vezes perdeu espontaneidade.
Às vezes perdeu prazer.
Às vezes está tentando sobreviver emocionalmente.
E talvez exista algo importante para lembrar:
Seu corpo não está necessariamente contra você.
Seu relacionamento não está necessariamente condenado.
E você não precisa enfrentar isso sozinho(a).
Na terapia, muitas vezes trabalhamos justamente aquilo que fica invisível: vergonha, autoestima, ansiedade de desempenho, medo de rejeição, comunicação sexual, culpa, insegurança, desconexão emocional e o impacto psicológico das mudanças na sexualidade.
Porque cuidar da saúde mental não deveria significar abandonar uma parte importante de quem você é.
Clarete Duarte Galdino – Psicóloga | Sexualidade, relacionamentos, ansiedade e vínculos afetivos
As informações publicadas por MundoPsicologos.com não substituem em nenhum caso a relação entre o paciente e seu psicólogo. MundoPsicologos.com não faz apologia a nenhum tratamento específico, produto comercial ou serviço.
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