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Amor e intimidade, precisamos disso?

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Diante da solidão, muitos homens gays recorrem a drogas lícitas e ilícitas para enfrentar o cotidiano, ao sexo em busca de alguma intimidade e ao suicídio para suprimir o sofrimento.

21 SET 2019 · Leitura: min.
Amor e intimidade, precisamos disso?

Por meio deste entendimento deparei-me com as questões sobre o amor, sobre sexo e sobre a intimidade. (Michael Hobbes, A epidemia da solidão gay: Um relato sobre a tentativa de nomear, sublinhar contornos e desenhar soluções de uma crise. Revista Huffpost, 2019).

Poder-se-ia dizer até que recorrer as drogas líticas e ilícitas, ao sexo e ao suicídio como formas de lidar com o sofrimento psíquico é um comportamento bastante usual em nossa época e que transcende em muito ao mundo gay.

E é muito importante pensar sobre a situação social e histórica do homem gay, como demonstra a reportagem que aborda a questão bastante séria de crescer no armário, faltar mediação e informação para vivenciar a própria sexualidade e de encontrar na adultez, após sair do armário, um armário simbólico ao se deparar com o olhar do Outro, isto é, uma certa impossibilidade de ser, estar a vontade nos mais variados lugares e com diversidade de pessoas, apesar de direitos civis conquistados.

A análise dos contextos históricos e sociais nos permitem compreender as possibilidades de interiorizar e exteriorizar o amor, o sexo e a intimidade. A partir disso podemos amar, ter intimidade e escolher fazer sexo de forma suficiente e satisfatória, melhor dizendo, sem sofrimento psíquico, desde de que possamos entender o que o que é preciso enfrentar.

Neste caso o armário simbólico que são as concepções sobre amor, sexualidade e a intimidade institucionalizadas e que são subjetivadas e objetivadas nas relações sociais, tornando-se inviabilizadoras para que homens gays possam experimentar-se amando nas mais diversas formas de amor.

AMAR É... Lembro-me de papéis de carta da minha infância que demonstram bem os valores solidamente constitutivos na sociedade. Muito embora os papéis de carta foram colecionamos por adultos também, eles se destinavam às crianças e jovens. Neles a única forma de amor romântico e sexual é entre heterossexuais.

Provavelmente, papéis de cartas tão cativantes quanto estes não impõem uma norma, mas constituem o imaginário, logo a cultura. Neste sentido, atravessam a experiência de crianças e jovens e sua subjetivação sobre a própria sexualidade. Está aí a perspectiva simbólica do armário, quando uma pessoa observa que encontrará muitas dificuldades para usufruir da graça de ser feliz por localizar que sua experiência de atração amorosa e sexual não é aceitável.

São muitos os gestos que podem significar o amor e muitos são os significados implicados em amar. Dentre eles está o amor romântico, o amor entre um casal. Certamente o amor vai além, o amor implica compartilhar desejos, projetos e valores num cotidiano que não envolve uma frequência temporal ou uma convivência espacial. Quem não assistiu ao filme nunca te vi sempre te amei ou ainda a excêntrica família de Antônia? E o lindo filme brasileiro Hoje eu quero voltar sozinho que também expressa várias formas e possibilidades de amar? Esses filmes poderiam inspirar a reflexão sobre o amor.

O amor preenche mas também é falta. E seja lá qual for a historicidade desse amor há algo provável e talvez óbvio, cada um ama com sua história mas também com o desejo de ser e assim constitui suas próprias possibilidades de amar. O que falta é o amor de um(a) filho(a), o amor romântico, o amor de um pai ou mãe, o amor de amigos(as)? Projeta-se algo que falta no amor romântico? Para esta última pergunta pode-se responde que sim, mas não absolutamente.

Sossegue! Nós sempre projetamos mas também reinventamos. Mas, para isso, é preciso intimidade, que nada mais é do que uma conduta na relação com o outro de falar e demonstrar o que se pensa e se sente de modo a viabilizar o relacionamento desejado. E assim, sentir-se a vontade em viver e conviver com o outro.

Estar presente na vida de alguém é uma escolha a respeito de si mesmo. Escolher amar alguém, na sua singularidade e também no que a pessoa expressa em termos de valores e possibilidades impacta a própria singularidade. Ser mediação para alguém seja no meio familiar, das amizades ou amorosamente é fazer-se ou personalizar-se nesta relação.

O texto de Simone de Beauvoir O que é o amor... e o que não é possibilita refletir sobre isso, muito embora o texto trate do assunto considerando como casal àquele formado por pessoas heterossexuais.

Mesmo com esta contradição, nele a escritora revela o que atravessa toda a sua obra, que o amor, em cada tempo histórico e cultura, é escolhido de forma livre, porque nada há que determine amar de um jeito ou outro, a não ser os próprios laços sociais e culturais. As tensões ou contradições que vivemos, portanto, implicam permanentes escolhas quando encontramos a nós mesmos na relação com o outro.

Quais escolhas faremos? Quais escolhas fazemos? Somente estando no mundo junto com os outros respondemos a tais questionamentos. Neste sentido, a solidão veladamente imposta aos homens gays, precisa ser compreendida, inicialmente, pela própria comunidade, bem como, enfrentada nas relações entre os homens gays e por todos aqueles que desejam um mundo em que os muros simbólicos sejam ultrapassados.

A solidão, certamente, poderá levar ao sofrimento psíquico e compõem as experiências expressas pelos índices alarmantes de ansiedade, depressão e suicídio. Isto mostra que os muros simbólicos não são meras abstrações, ao contrário, são bem reais, tanto quanto os formados por concreto e arame, pois encerram muitas pessoas na solidão. Por isso, também precisam ser analisados e desfeitos. 

A psicologia, amparada pelas outras ciências e pela filosofia, pode oferecer uma contribuição tanto para a compreensão quanto para a mudança no campo social, sobretudo, no que diz respeito ao simbólico. A condição de possibilidade de simbolizar conferida aos seres humanos, é uma das dimensões universais e singulares que somos todos nós.

Ser universal singular envolve a historicidade da experiência individual. A solidão por ser uma experiência necessita da condição social para ocorrer e é ela que precisa ser modificada.

A psicologia existencialista operada numa psicoterapia considera a experiência nos termos aqui expostos. Porém, com uma singela proposição, lida apenas com o sujeito, entretanto, pode mediá-lo a localizar-se em sua solidão e fazer escolhas que decorram em seu benefício e daqueles(as) que ama.

Escrito por

Andréa Luiza da Silveira

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