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A idealização do amor perfeito e seus riscos

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Artigo revisado pelo Comitê de MundoPsicologos

Em tempos de redes sociais, a busca por ser completamente feliz no amor, a partir de padrões pré-estabelecidos, pode nos levar a caminhos enganosos e a verdadeiras armadilhas.

20 FEV 2019 · Última alteração: 4 MAR 2019 · Leitura: min.
A idealização do amor perfeito e seus riscos

Será possível conceber um outro que possa nos completar de forma satisfatória num mundo impregnado de exigências de virtudes e afetos associados a demarcações hedonistas? Será que encontraremos uma relação ideal a partir de parâmetros nos quais se enaltece a perfeição, a beleza e uma condição de alegria permanente? Existirá a suposta felicidade? E se existir, como ela se configura dentro desse contexto social contemporâneo?

O ideal do amor perfeito

Podemos perceber que ser amado é algo que nos move e, desse modo, nos faz tomar decisões de escolha por um afeto e a um outro que nos diga algo importante sobre si e sobre nós. Nesse sentido, é possível que nos reconheçamos a partir do outro e a imagem que vemos nele não nos agrade muito e, assim, partimos para uma exigente escolha sem fim. Contudo, para se alcançar uma relação promotora de afeto reciproca se faz necessário reconhecer que somos feitos de virtudes e defeitos. Sendo assim, a realidade se impõe a exigir que tenhamos de fazer escolhas quanto aceitar o outro como ele é ou não. Pois, fazer escolhas faz parte da dinâmica da vida e do sujeito. Contudo, sabe-se muito bem que mesmo quando nos abstemos de escolher algo, estamos, nesse momento, efetivamente fazendo uma escolha – a de não escolher. Nesse caso, a busca por afeto e por alguém correspondente a este diz respeito às escolhas que fazemos de forma identitária, pois nossa identidade fala de quem somos, assim como também em relação ao que fazemos e o caminho de vida que escolhemos.

Amar e ser amado é uma escolha que nos permite construir algo em torno do que sentimos e, nesse sentido, seguir ideais de perfeição pode nos afastar de algo promissor emocionalmente na medida em que perdemos a chance de aceitar as coisas também como elas são – imperfeitas e reais, mas também produtoras de profunda inspiração e transformações. Afinal, nada nunca será exatamente perfeito.

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Mas, a percepção em torno da felicidade em tempos atuais permite que se verifique algo ainda mais relevante do que já foi anteriormente – o fato de ter direitos e deveres, prós e contras, perdas e ganhos.

O amor em tempos de redes sociais

Somos seres gregários cujo convívio implica em intercambiar valores, objetos e sentimentos. Contudo, isso não significa que devemos considerar que a vida é uma barganha na qual é preciso se fazer um investimento pragmático que propicia conseguir o objeto desejado mediante um "pagamento". Temos a possibilidade de aferir o quanto nossos valores humanos são fundamentais apesar de estarem aquém do ideal estabelecido por um senso comum e, desse modo, possamos observar também que somos portadores de imperfeição, muito embora a estética e o semblante de felicidade em espaços de contemplação e amostragem deixem uma expressão de que todos são sujeitos próximos da perfeição.

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Afinal, em tempos de redes sociais podemos nos deparar com muitas curtidas para questões menos profundas de modo a reduzir a uma expressão de si e do outro em uma mera imagem de felicidade irretocável sem permitir que se eleve a pauta de interação social também para um processo de reflexão sobre aquilo que precisamos melhorarmos em nós e no mundo.

O que vem a ser felicidade no amor então?

Podemos partir sobre um ponto importante para responder esta pergunta - o prazer e o desprazer. Pois, nesse sentido, a psicanálise nos dá elementos suficientes para identificar no sujeito aquilo que o move, ou seja, o desejo. Somos levados a nos mover a partir do desejo que se constrói também a partir de um ideal, uma meta ou ainda algo que diga respeito ao que sentimos, seja um desprazer ou um prazer. Na verdade, é possível dizer que o desprazer e o prazer estão dentro de um mesmo campo objetivo do sujeito. Afinal, agimos em função do distanciamento do desprazer que, por sua vez, vem a se traduzir numa espécie de prazer em contraste e de alívio. Desse modo, é possível se dizer que somos movidos por essa dinâmica. Sendo assim, é factível considerar que a felicidade se encontra na apreensão e no desfrutar do prazer tanto mais constantemente possível.

Infelizmente, uma plenitude de constante prazer não existe. Vivemos de forma pendular entre sentimentos ambíguos que se regulam pela ação do sujeito com a vida. Contudo, alguns aspectos de satisfação fugaz e sua compulsão podem ser confundidos com o encontro do prazer de forma enganosa, levando o sujeito a um jogo exaustivo pela manutenção de uma satisfação que poderá estar presente em mecanismos artificiais que levam o sujeito a situações embaraçosas de verdadeiras armadilhas.

O prazer legítimo, no entanto, consiste em algo mais consistente e que permanece conosco a partir da elaboração e superação de questões que exigem implicação diante de um possível desconforto inicial, ou seja, sem esforço não há ganho. Quando superamos desafios acabamos tendo um sentimento que podemos chamar de prazer como acontece quando passamos num vestibular para um curso muito desejado que corresponde a nossa identidade, por exemplo, ou até mesmo quando temos a oportunidade de vivenciar a prática de uma atividade laboral que atenda nossos interesses e habilidades.

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Encontrando o equilíbrio

Nesse caso, lidarmos com desafios faz parte da vida. Superá-los pode tornar-se uma construção com resultados prazerosos sem precedentes. Contudo, vivemos em tempos de evitação de frustração e, desse modo, é possível que evitar frustrar-se leve ao destino oposto de distanciamento do desprazer então buscado inicialmente. Nem tudo é tão fácil ou tão difícil quanto parece. Para se encontrar um relativo prazer na vida é provável que precisemos abrir mão de algumas satisfações imediatas sem que isso signifique um sacrifício cruel, pois precisamos nos tratar com seriedade sem criar severidade em excesso.

Buscar a dosagem de exigência de aprimoramento e de compreensão de limites pode ser o primeiro desafio a considerarmos na busca de uma vida plena de boa vivencia para com as nossas questões em prol de uma superação de desafios e imperfeições. Pois, o ato de auto cuidar-se passa pela possibilidade de enfrentarmos aquilo que à primeira vista nos parece intransponível, mas que exigirá esforço e tempo para se desconstruir algo que se faz incômodo e inadequado e, desse modo, poder construir algo novo em seu lugar.

Nesse caso, o processo psicoterapêutico pode ser uma das ferramentas para alcançar este objetivo, mas acima de tudo o que nos torna promissores quanto a felicidade relativa está em se fazer atento para com suas próprias angústias e frustrações, pois elas falam muito de algo que precisa ser ouvido e trabalhado com atenção e responsabilidade. Sendo assim, ouvir-se pode passar por um processo de inicial desconforto a partir da exposição de sentimentos, mas na medida em que se avança sobre a análise de suas questões de forma corajosa, tão maior serão as chances de se viver uma vida relativamente satisfatória, ou seja, uma vida passível de compreensão e maturidade sobre si capaz de produzir satisfações legítimas.

Por Adriano Andrade Barboza, psicólogo inscrito no Conselho Regional de Psicologia do Paraná

Fotos: MundoPsicólogos.com

Escrito por

Psicólogo Adriano Andrade Barboza

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1 Comentários
  • Emilia Kelly Ribeiro da Silva

    Muito bem colocado , e muito esclarecedor , a vida sentimental é muito conflitante em nossas emoções e mexe em todas as áreas da vida , assim sendo é muito valioso ter um norte para nós direcionar como o texto a cima , obrigado !!

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