Boca fechada e pé na estrada

Crônica baseada em observações de uma tarde de lazer e as interfaces possíveis com a psicanálise, teoria e prática.

1 MAI 2016 · Leitura: min.
Boca fechada e pé na estrada

Uma crise de bobeira literalmente baixou em mim após ouvir o imperativo: boca fechada e pé na estrada (expressão dita na peça teatral "Panos e Lendas" do grupo Pic & Nic). Já faz cinco dias que ouvi e simplesmente tenho crises de riso quando me lembro da dita frase. Pareceu-me um chiste.*. Como não sai da minha cabeça, tenho que colocar no papel.

Precisamos, eu, talvez você e muitos outros, de boca fechada e pé na estrada. Dito de outro modo: parar de reclamar e seguir a vida, cumprir os deveres queridos ou não, fidelizar o que se fala, manter os compromissos ou no mínimo se comprometer somente com o que é possível cumprir, fechar ciclos (tão importante para dar início a outros), decidir o que se quer e se responsabilizar pela decisão, seja ela fácil ou difícil.

Eu, por exemplo, decidi agora parar de reclamar do frio. Que não o tolero, é fato, mas é categórico que não posso mudar a temperatura, a não ser por meio das inúmeras peças de roupas sobrepostas. Também decidi fazer um exercício (ainda que sobrenatural) de parar de reclamar da falta de tempo. Outro que não posso mudar. O que posso fazer é usá-lo melhor, retirar coisas de pouca importância, delegar e eleger as prioridades.

Boca fechada também pode ser útil para não dar opiniões onde não se é chamado, para não criticar o que não se conhece bem, não passar para frente o que se ouviu e não sabe se a fonte é verdadeira (em tempos de whatsapp), para não depreciar alguém ou alguma coisa desse alguém.

Pé na estrada é maravilhoso para terminar o que começou (se for prioridade), dar início a um novo curso, cuidar da saúde, viajar a lazer, colocar as contas em dia, livrar-se de coisas inúteis e que abafam o caminho, afastar-se de pessoas que definitivamente não tem nada a ver com você, casar, ter filhos ou decidir não tê-los, mudar de emprego chato, cuidar da vida espiritual e tantas outras coisas.

Talvez a graça venha da determinação da frase, ela não deixa brecha para negociação e nos remete ao que é a vida: seguir em frente.

Deixo aqui o convite: boca fechada e pé na estrada!

*Chiste: é uma formação do inconsciente, encontrada na obra de Freud. Funciona como válvula de escape e é formado por uma palavra ou frase curta e provoca riso para quem o teve.

Tânia com crises de riso e pé na estrada em agosto de 2015.

Foto: por Daniel Gimbert (Flickr)

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Escrito por

Tânia Maria Magalhães

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